Ao observarmos a tentativa de Donald — o “Agente Laranja” — de intervir nas decisões disciplinares da FIFA, não estamos diante apenas de um delírio de poder, mas de uma manifestação clássica daquilo que Foucault descreveria como a ressurgência do poder soberano sobre o corpo dos sujeitos e das instituições.
A Performance da Tirania
Foucault nos ensinou que o poder não é algo que se possui, mas algo que se exerce. No entanto, o que vemos aqui é a encenação do poder em sua forma mais arcaica e bruta. Quando um líder exige o cancelamento de um cartão vermelho, ele não está apenas tentando alterar um resultado esportivo; ele está performando a sua impunidade.
Para o “Agente Laranja”, não basta exercer o fascismo nas sombras das políticas de Estado; é preciso que o ato seja público, visível e performático. Como diria Foucault, é a exposição do “suplício” — a necessidade de exibir a força para que todos saibam quem dita a norma. É uma demonstração de que a sua vontade está acima da regra, do regulamento e da própria institucionalidade global. É o desejo de ser, ele próprio, a lei.
O Poder que “Escancara”
O termo “escancarar” é cirúrgico. Ele revela a transição entre o poder disciplinar — que opera silenciosamente nas instituições, escolas e quartéis — e a tirania explícita, que precisa romper as grades da normalidade para reafirmar sua soberania. Ao violar a autonomia de um órgão esportivo internacional, ele reafirma a lógica fascista: a de que as esferas da vida civil não possuem autonomia diante do líder.
O Espaço da Normatização
Por fim, ao afirmarmos que “a Copa está sendo realizada em um país fascista”, toca-se no cerne da biopolítica. Quando o fascismo se torna a atmosfera de um evento global, o esporte deixa de ser um campo de jogo para se tornar um dispositivo de legitimação. O campo de futebol, sob o olhar de um regime tirânico, transforma-se em um espaço de vigília, onde o corpo do atleta é apenas um peão na coreografia do poder.
A tirania, neste contexto, não precisa de sutilezas. Ela se retroalimenta da própria exibição da sua face mais perversa. O fascismo, quando não contido pela lei ou pelo consenso, converte-se em um espetáculo de força onde a única regra restante é a submissão ao capricho do tirano.
O fascismo não é apenas o poder de um homem, mas a estrutura que permite que esse homem se sinta o próprio dono da realidade.
© Beatriz Esmer
