Eu amo o longe, o longínquo que não me alcança porque eu mesma sou a distância. Amo a miragem – essa mentira honesta que me permite ver o que ainda não ousei ser. Amo o abismo, o profundo, o que não tem fundo porque a vida, essa coisa inadiável, exige que eu me perca em torrentes e desertos. E eu tenho a minha loucura. Não a escondo, não a domestico: eu a ergo, alta e nua, como um farol na noite mais negra, um sinal para ninguém, um guia apenas para o meu próprio desespero sagrado. E sinto a chuva, sinto o sangue, sinto as canções que me brotam nos lábios como uma urgência, um gosto metálico de existência pura.
Oh, que ninguém venha me oferecer intenções piedosas. Que ninguém se atreva a me ditar ajustes, como se eu fosse um móvel a ser enquadrado em uma sala arrumada. Que ninguém me chame para o perto, para o previsível, para o “vem aqui” que é um sufoco. Eu não pertenço a esse pacto de mansidão.
Minha vida é uma tempestade que se soltou das rédeas de mim mesma. É uma onda que se levantou, um átomo que se arriscou a ser matéria viva e convulsa. Não sei para onde vou, e a falta de rumo é o meu único norte; não sei onde estou, pois o “onde” é uma prisão do mapa. Mas, ah, eu sei, com uma certeza que me dói e me ilumina, exatamente onde é o meu lugar: é no meio do caminho, onde tudo se desfaz para, enfim, poder ser.
© Beatriz Esmer
