A crença é uma casa feita à nossa medida — ou talvez, feita apenas para que a gente caiba dentro de uma mentira suportável. As paredes foram moldadas por um espanto que tentamos domar, e as janelas… ah, as janelas são apenas molduras para uma esperança que insiste em olhar para fora, como se lá fora houvesse algo além do reflexo do nosso próprio rosto.
Por um tempo, vivemos ali, num aconchego que é quase um sufoco. É uma casa confortável, feita à imagem e semelhança do que achamos que precisamos para não desmoronar. Mas o tempo tem esse hábito cruel de nos esticar. Nós crescemos, ou talvez apenas nos tornemos grandes demais para as nossas próprias certezas. De repente, os tetos começam a baixar, as esquinas da sala ficam apertadas demais para a alma, e a gente se vê ali, no meio do caos, empacotando os cacos das verdades que, ontem mesmo, pareciam imutáveis.
A maturidade é esse ato silencioso e dilacerante de mudar de casa. Às vezes, a gente sai com a graça de quem já não precisa de mobília; outras vezes, a gente sai arrastando a dor de ter perdido o chão. Vagamos por cômodos desconhecidos, ou voltamos aos antigos, só para ver que os móveis foram rearranjados por uma nostalgia covarde que tenta nos enganar. Cada casa, no fundo, só oferece um ângulo diferente do mesmo abismo, um eco que tem o timbre da nossa própria voz fingindo que entende a vida.
Mas talvez a sabedoria seja o susto de descobrir que nenhuma casa é nossa. Nenhuma. Elas são apenas pousos de repouso para o que não tem onde morar. E então, o sábio — se é que existe esse bicho raro — caminha leve, sem pisar fundo. Ele não constrói fortalezas; ele faz de cada crença apenas um endereço temporário. Um lugar onde a verdade pode entrar, sentar-se por um breve instante, tomar um café amargo e, sem se despedir, partir — deixando-nos, finalmente, desobrigados.
©️ Beatriz Esmer
