Existe alguém aí dentro, um núcleo incandescente e anterior a tudo. Antes que o espelho se tornasse um tribunal, antes que você contasse os fios de cabelo, as medidas, os anos — essa matemática cruel que inventamos para nos aprisionar. Lembre-se daquela pessoa que habitava o seu peito antes de você aprender o gosto áspero da rejeição, antes de conhecer a traição como quem conhece uma faca, antes de saber que a derrota é uma sombra que às vezes nos persegue.
Alguém chegou e disse: você não pode. Você não deve. Você não é isso, você não é aquilo. E você, na sua imensa capacidade de ser moldável, acreditou. Ocupou o espaço exato que o outro desenhou para você.
Mas, escute: Pare.
É preciso um corte. Um corte seco, uma interrupção súbita no fluxo do cotidiano. Resolva, com a urgência de quem precisa salvar a própria vida, nunca mais se desrespeitar. Porque o desrespeito não é apenas o que vem de fora; é o silêncio que você impõe à sua verdade para caber no mundo.
Você não é a etiqueta que colaram na sua testa. Você não é a soma de suas funções, nem o rótulo de suas dores. Se a sua dor tem limites, você não os tem. A dor é um acidente de percurso, não a sua geografia.
Pare.
Respire. Respire fundo, até sentir o ar invadindo o que estava estagnado. E continue.
Não se defina por fragmentos. Você não é apenas um corpo, nem apenas uma alma, nem apenas um espírito — essas definições são gaiolas. Você é um acontecimento. Você é uma história em constante, vertiginosa e bela expansão, desdobrando-se no mistério de ser quem você, finalmente, decidiu ser.
© Beatriz Esmer
