Aprendi. Talvez aprender seja apenas um nome pomposo para o lento desabrochar de uma necessidade de sobrevivência. A arte de dizer “não” — essa palavra tão curta, tão cortante como uma faca de cozinha, tão absoluta — é, na verdade, a única forma de salvar a própria pele. Dizer “não” não é um ato de negação; é, ironicamente, um ato de amor. Um amor feroz, quase egoísta, por essa estranha criatura que habita o meu espelho.
Percebi, enfim, que a felicidade é um estado de solidão acompanhada. Ela não mora no outro, nem no agrado que ofereço, nem na expectativa que satisfaço. A felicidade é um centro que precisa ser preservado. Por isso, fecho a porta. E a fecho com uma trava pesada.
Não deixarei entrar quem traz o veneno da xenofobia, da gordofobia, do racismo, de qualquer dessas formas de pequenez que tentam moldar o mundo à imagem do seu próprio medo. Essas pessoas — ah, elas não têm lugar no meu vasto mundo, onde a diversidade é a única verdade que me interessa. Quando digo “não” a esse tipo de gente, não estou apenas rejeitando uma presença; estou dizendo um “sim” retumbante para a minha paz. Um “sim” que ecoa no vazio, preenchendo-o de mim mesma.
É estranho, mas dizer “não” é, acima de tudo, um exercício de delicadeza. É reconhecer que não sou um objeto de uso público, que não devo satisfações à máquina do mundo. Não é egoísmo. É a preservação da minha energia, essa coisa fina e rara que sinto escorrer quando me permito ser invadida.
A jornada até aqui foi atravessada por uma culpa antiga, herdada de infâncias onde fomos ensinados a obedecer. O medo de decepcionar o outro era uma sombra que me seguia. Mas, um dia, a sombra se desfez na luz do entendimento: eu não posso carregar o peso do mundo e, ao mesmo tempo, carregar a mim mesma. O peso das expectativas alheias não me pertence. Eu sou, apenas, a minha própria verdade.
Hoje, pronuncio o “não” com uma serenidade que me assusta. É um “não” que já não pede desculpas, que não se explica. Ele apenas é. E ao dizer essa palavra pequena, crio um clarão. Nesse clarão, as pessoas que não vibram na minha frequência simplesmente se dissolvem. O que sobra? O que importa. Dizer “não” é, no fundo, a única maneira de conseguir dizer “sim” ao que, de fato, pulsa dentro de mim.
© Beatriz Esmer
