Há poemas que andam de cabeça baixa, como se fossem culpados por existir. Disfarçam-se de metáforas gentis, pulam verdades com a leveza de quem tem medo de tropeçar na realidade. Esses não me interessam. Nunca me disseram nada além de silêncio. Prefiro os que mastigam o mundo com dentes afiados — que explodem na boca com gosto de fruta madura, que rangem entre os molhares, que deixam marcas.
Os bons poemas não se escondem. Eles se espreguiçam no calor do dia, estendem-se em cima da página como gatos lânguidos, ronronando certezas. São versos que brilham na própria pele, que não precisam de permissão para respirar. Vivem intensamente — e por isso sobrevivem a nós.
Crônicas assim também querem ser poema. Querem dizer sem pedir licença. Porque há uma fome de verdade que não se sacia com palavras tímidas. E quando um texto ousa ser esse felino ao sol, quando ronrona e arranha ao mesmo tempo… é aí que ele passa a viver de verdade.
©️ Beatriz Esmer
