O corpo — ah, esse corpo. Esse desconcerto de carne que a gente carrega como quem carrega um segredo pesado e mal resolvido. Um vaso frágil, um trânsito de sangue, um fôlego que insiste em acontecer apesar dos pesares e das medidas que o mundo quer nos impor. O mundo, com sua mania tacanha de caber em caixas, de medir a beleza em centímetros, de rotular o que transborda. Mas a gente é mais. A gente é uma força que escapa por entre os dedos da lógica.
E no entanto, quantas vezes eu não olhei para esse meu invólucro com uma estranha comiseração? Como quem olha para um móvel antigo na sala errada. Mas ele está aí. Fiel, silencioso, suportando o peso dos meus dias e das minhas hesitações, sustentando o meu passo trôpego. É o único que tenho. Essa matéria densa, imperfeita, mortal, que carrega o milagre inexplicável de ser eu. Única. Irrepetível. Uma rachadura por onde entra a luz.
Comparar-se é uma violência que a gente comete contra o próprio milagre. É um roubo miúdo da alegria. Os outros… os outros são apenas os outros, com seus olhos cheios de névoa e seus julgamentos passageiros como o vento na vidraça. Por que entregar a chave de casa a quem mal sabe onde fica a porta? A verdadeira raiz da alegria não viceja no aplauso alheio; ela é muda, subterrânea, e germina no silêncio de quem finalmente ousa se escutar.
É preciso uma coragem feroz para ser quem se é. Desprezar o sopro leve das opiniões alheias, que não passam de fumaça. Viver. Apenas viver, com essa urgência meio desesperada e bonita que a vida exige. Ser gentil consigo mesma como quem acolhe um animal assustado. Acender essa luz esquisita que habita o peito e deixá-la queimar, sem pedir licença ao mundo. Porque, no fim das contas, é só isso que nos resta: a coragem indomável de habitar a própria pele.
© Beatriz Esmer
