Amor: O Tempo Interno e Ser

Há um tempo que não se mede nos ponteiros do relógio, que se recusa a obedecer à tirania dos minutos. É um tempo denso, espesso, que transborda por dentro.

Quando se ama, o relógio emudece. A gente abandona a superfície das horas cronológicas e despenca para dentro de um tempo uterino, pulsante, onde tudo é fundo e vertigem. É o instante-já. É ali, nesse território sem mapas, que o meu “eu” tateia o escuro e esbarra no “outro”. E, no susto desse encontro, reconhece-se. O outro não é uma paisagem distante; é um espelho onde a alma se admira e se assusta, porque amar é, antes de tudo, uma revelação quase insuportável.

De repente, o ordinário perde a cor cinzenta e cede lugar ao milagre. O amor é essa centelha faiscante que morde os dias mudos e os impregna de uma poesia secreta. Ele transforma o gesto mais banal — o café que coa na madrugada, o silêncio compartilhado na sala vazia, a mão que distraidamente roça na outra — em um acontecimento cósmico. É o sentido irrompendo naquilo que não tinha nome.

E a vida se divide com a precisão dolorosa do mistério:
Nascer é apenas estar no mundo, é ocupar o espaço físico da carne.
Mas amar… Ah, amar é ser.

© Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.