Perdi de novo. O instante exato que eu queria guardar escorreu pelos meus dedos no segundo estúpido em que estiquei o braço para alcançá-lo. Tentei fixar os olhos, mas a verdade é que os mantinha fechados. No piscar de um cílio, como um sopro sujo, o mundo mudou de lugar: a luz entortou, alguém espirrou longe, a terra deu uma guinada cega no vazio — e pronto, já era.
Achei que daria conta de escrever sobre isso. Envolvê-lo em palavras grossas, costurar um casaco de linguagem para abrigar a coisa antes que ela morresse de frio. Mas nenhuma palavra minha servia. Nenhuma tocava na cor daquela dor, no cheiro daquele quase-nada, no gosto de mofo e mel que aquilo tinha. Quis inventar nomes novos, raspar o fundo da língua à cata de sílabas que nunca ninguém tivesse usado. Senti o ímpeto subindo pelos braços, correndo para os meus dedos, pronto para cometer o crime sujo da memória: registrar à força um instante que talvez só quisesse o esquecimento.
As palavras pararam no meio do caminho. Estacão estúpida. Por mais que eu as virasse do avesso, elas não encaixavam. Eram roupas folgadas demais para o meu esqueleto. Falavam apenas daquela ideia vaidosa que eu faço de mim mesma, nunca da víscera nua que eu era naquele segundo exato.
Pensei em falar em voz alta, mastigar as metáforas tortas para ver se a massa lis aleijada alisava. Mas todos aqueles roteiros lindos, de uma eloquência de cinema que ecoava na minha cabeça, despencavam na ponta da língua como vidro moído. Não me ajudavam a contar nada. Pelo contrário: me traíam, escancarando o quanto eu estrago com o pensamento o que deveria nascer sem raiz e sem dono.
Os sentimentos, não. Esses vinham com uma facilidade pornográfica. Vinham demais, transbordavam, inundavam a sala com seu caleidoscópio de amor estúpido, com o grito vivo da sua existência e com o peso de chumbo do desespero. E aquela dor, ah, aquela dor grudava na minha pele como graxa. Tornava-se minha, irremediavelmente minha. Mas bastava eu estender a mão para tentar segurar essas emoções — prendê-las num vidro, admirá-las de lupa —, e elas viravam teias de aranha velhas. Arrebentavam, encolhiam-se para os cantos, recusando-se a voltar àquela geometria perfeita. Eu as caçava com desespero, e elas sumiam, viravam fumaça. Quando eu desistia e parava de olhar, voltavam a roçar na minha nuca, leves e insolentes como um sopro de vento úmido.
Porque tentar coletá-las, contê-las, dissecá-las com a frieza de quem coleciona insetos mortos… isso é matar o pulso. É destruir o que as tornava insuportavelmente reais.
E assim fico de novo. Sozinha na sala escura. Talvez melhor, talvez pior por ter esbarrado nelas como quem esbarra num móvel no escuro. Eu queria aprisionar esses momentos, continuo querendo, com uma teimosia cega. Nunca consigo. E é justamente por nunca conseguir que essa fome continua me devorando por dentro.
© Beatriz Esmer
