Desperto, não sei se pelo sopro ancestral do vento ou pelo toque morno da luz que me rasga a pele, devolvendo-me a este mistério sufocante que é existir. Despertar é essa vertigem dolorosa entre o esquecer e o lembrar, um jogo cego onde a verdade ora se esconde tímida em estilhaços de vidas pretéritas, ora desaba sobre mim como uma tempestade crua que me arranca à força do sono.
Nesta dança irreprimível, desabrochamos ou definhamos no vaivêm inexorável dos dias e das noites, condenados ao sublime equívoco de esquecer para lembrar, e lembrar para esquecer. E eis-me aqui, a pulsar em rebeldia silenciosa, contendo o fôlego enquanto resisto teimosamente à própria metamorfose, embora traga cravada no peito a urgência de um destino escrito nas estrelas.
Amanhã, quem sabe, o dia trará a carne nua da verdade revelada e eu estarei um milímetro mais próxima daquele segredo que a minha alma já conhece, mas que a minha carne ainda teme. Até lá, continuo — esta febre silenciosa que dança, que sonha, que tateia o escuro à procura de si mesma.
© Beatriz Esmer
