O sagrado não faz estrondo. Ele se abriga, quase sem pedir licença, nesse espaço rarefeito que a gente tenciona e impõe contra a urgência bruta do mundo cotidiano. Ah, o cotidiano… essa engrenagem que mói os dias. Mas há um refúgio. E é possível — veja só que ironia delicada — morar nesse espaço carregando a tristeza nos ombros, o luto latejando, a dor antiga. Sim, pode-se habitar o sagrado com a alma em frangalhos, mas vestindo a polidez exata de um anfitrião que compreende, no fundo dos olhos, que o hóspede (mesmo a dor) não fica para sempre. Tudo passa, até a tempestade dentro da gente.
E, tirando as grandes liturgias, os paramentos e as solenidades que se curvam nos altares, será que esse desvio torto do sagrado possui um ritual próprio?
Possui. É de uma simplicidade que dói.
É o ritual miúdo do cigarro aceso e do café fumegante logo após a refeição, quando o estômago descansa e a mente finalmente cede. É a rendição. É o corpo que se esparrama, faminto por trégua. É aquela velha poltrona, gasta e cúmplice no canto exato da sala, que parece respirar sozinha, apenas esperando o dono retornar do peso exato do trabalho. É o livro fechado sobre a mesa, paciente, aguardando que o abrirmos para que outro mundo comece. É o abraço. Aquele abraço que a gente deseja tanto que aconteça, que quase estremece antes mesmo de apertar dois corações.
Sagrado é isso: o espaço invisível da amizade. Uma postura quase religiosa, de uma veneração silenciosa, diante da vida que pulsa e escapa. E, quem diria, uma veneração silenciosa diante de nós mesmos, que tantas vezes nos abandonamos no meio do caminho.
No fim das contas — ou no começo de tudo —, sagrado é tudo aquilo que, de repente, nos faz sentir, por um segundo que seja, profundamente felizes.
© Beatriz Esmer
