A Casa da Dor

A dor não chega avisando; ela entra sem pedir licença, feito uma visita antiga que conhece cada canto da casa e traz na bagagem o peso do mundo. Ela assume feições de teatro, veste máscaras que a gente tenta disfarçar com um sorriso frágil, enquanto por dentro o peito aperta num nó cego.

Há algo de implacável nessa presença. A dor corrói as horas, amadurece a pele antes do tempo e nos desarma por completo, revelando a frágil carne que somos. No entanto, ela não é apenas ruína. No silêncio dos dias que se arrastam, a dor trabalha em silêncio. Ela nos despoja do supérfluo, rasga as certezas e, devagar, vai nos devolvendo inteiros — um pouco mais ásperos, é verdade, mas inteiros.

É na insistência dessa ferida que mora a poesia. Para quem escreve, a dor é essa companheira de cabeceira, a sombra que dita o ritmo da respiração e impregna a tinta de verdade. É preciso atravessar o escuro para alcançar a claridade. E, no fim de tudo, quando a tempestade finalmente abranda, percebe-se que a dor — por mais cruel que pareça — foi o único caminho possível para nos ensinar a amar sem medidas, para além do próprio sofrimento.

© Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.