À medida que os anos avançam e a vida vai contornando nossas urgências, descubro um valor quase sagrado no silêncio. No direito legítimo de recolher os passos.
Como bem aprendi, e trago guardado no peito: quanto mais envelheço, mais percebo o valor da privacidade, de cultivar o nosso círculo e permitir a entrada apenas de quem realmente importa. A gente deixa de lado a ânsia de caber no mundo inteiro e passa a zelar pelo pequeno espaço onde nossa alma descansa.
Não se trata de trancar portas por medo, mas de compreender uma geometria sutil da convivência. Você pode ser aberto, honesto e verdadeiro, e ainda assim entender que nem todos merecem um assento à mesa da sua vida. A franqueza não exige exposição pública; a verdade não precisa ser um espetáculo para platéias vazias.
O afeto verdadeiro pede intimidade, e intimidade é solo sagrado. Não se reparte com qualquer um. É preciso coragem para esvaziar a mesa dos excessos, dos ruídos e das presenças vazias, deixando apenas os poucos que sabem ler nossos silêncios.
No fim, o que sobra é a beleza de ser quem somos, na luz branda de um espaço protegido e escolhido com amor. ❤️
© Beatriz Esmer
