A vida, pensei, enquanto o pensamento desenhava volutas preguiçosas no ar parado do meu escritório, a vida é um exercício contínuo de nada. Um nada que, teimosamente, insiste em ser preenchido com o peso insuportável do “algo”.
Olhei para a folha de papel em branco. Nela, tracei, com uma caligrafia que parecia pertencer a um estranho, as três regras. Não regras para a ação, mas regras para a não-ação, para a abstenção do ser que tanto nos consome.
Foda-se tudo.
Esta é a regra do desencanto. É a rendição. Não uma rendição covarde, mas uma rendição lúcida, quase elegante. É olhar para a montanha de obrigações, de esperanças frustradas, de amores que se tornaram rotina, e dizer, com um suspiro que é tanto um alívio quanto um luto: “Foda-se”. É a epifania do desapego. Deixar que o peso caia, como um fardo inútil que se solta e se desfaz. É um ato de amor-próprio, um reconhecimento de que a importância que damos às coisas é uma invenção, uma farsa que nós mesmos encenamos. É a liberdade do absurdo.
Não se foda.
Ah, essa é a mais difícil. Pois somos, por natureza, nossos próprios algozes. Nos chicoteamos com as memórias do que fizemos, com o medo do que faremos, com a culpa pelo que não somos. Nos fodemos com a nossa própria moralidade, com a nossa ânsia de perfeição. “Não se foda” é um imperativo de clemência. É um pedido para que tenhamos piedade de nós mesmos. É aceitar que o nosso eu mais íntimo, esse ser secreto e inconfessável, não tem culpa de ser como é. É parar de olhar para o próprio umbigo com o escrutínio de um juiz implacável e começar a olhá-lo com a ternura de um amante. É se permitir a estranha e bela liberdade de ser um ser imperfeito.
Não deixe que te fodam.
Esta é a regra da fronteira. A regra do sagrado. É a defesa daquele núcleo íntimo, daquele “eu” que sobrevive a todas as catástrofes. Porque o mundo, com a sua voracidade, com o seu desejo insaciável de nos moldar, de nos coisificar, de nos reduzir a uma função ou a um papel, tentará, constantemente, nos foder. Tentará nos fazer crer que valemos pelo que produzimos, pelo que temos, pelo que aparentamos. “Não deixe que te fodam” é um ato de resistência silenciosa. É levantar um muro invisível, uma muralha de indiferença e de autoestima, contra a invasão do externo. É proteger a própria solidão, o próprio pensamento, o próprio mistério. É a recusa em ser domesticado.
O silêncio ao redor tornou-se denso. As três regras permaneceram na folha, palavras nuas, despidas do contexto original, flutuando no meio da página em branco como três faróis em um mar de incerteza. E, no recolhimento que se seguiu, percebi que elas não eram regras para viver, mas regras para, finalmente, ser. Ser, no vasto e silencioso reino do próprio ser. Ser, e nada mais.
© Beatriz Esmer
