Lembro-me dos dias em que o nosso silêncio não era um vazio ameaçador, mas um abrigo. No entanto, às vezes, nos perdemos em silêncio. E foi exatamente isso o que aconteceu: o refúgio transformou-se em labirinto.
Eu teria gostado que você compreendesse o que os meus silêncios tentavam te dizer. Queria que os meus olhos desvendaram os mapas que eu trazia no peito, as urgências contidas, o cansaço disfarçado de calmaria. Eu teria gostado que você reparasse nas pequenas mudanças, nas distâncias, nos momentos em que eu simplesmente precisava ser ouvido. Um toque, um olhar demorado, a respiração compassada — pequenas pontes que eu esperava ver construídas sem que eu precisasse implorar por elas.
Mas a vida é feita dessa assimetria dolorosa. Nós nem sempre temos as mesmas maneiras de expressar nossas emoções. Eu, eu guardava coisas demais por dentro, trancando dores e desejos em cômodos escuros, esperando que a intensidade do meu sentimento bastasse para iluminar o quarto. Você, ao contrário, esperava que eu as dissesse claramente, com a nitidez fria e exata das frases ditas em voz alta.
Eram simplesmente duas pessoas que sentiam muito, mas que não sabiam mais como se reconectar.
Então os mal-entendidos se instalaram como uma poeira fina sobre os móveis da nossa rotina. Os não-ditos acumularam-se em pilhas volumosas, bloqueando a passagem, e, pouco a pouco, nós cessamos de nos reencontrar. O toque tornou-se esbarrão; a conversa, um exercício de mesmice.
Isso talvez não fosse uma falta de amor. O sentimento ainda respirava ali, sufocado e trêmulo, debaixo de tantas camadas de orgulho e desencontro. E às vezes, é assim que certas histórias terminam: suavemente, sem o estrondo dos pratos quebrados ou o fel das despedidas ríspidas. Apenas nos esvaziamos um do outro, deixando que o tempo levasse o que já não sabíamos como salvar.
© Beatriz Esmer
