Às vezes é preciso lutar para além das nossas próprias forças e encarar os nossos demônios. Não importa o quê, temos de nos reinventar a cada dia, encontrar a nossa própria estrela e deixar que o brilho se derrame sobre nós. Nada é fácil, embora a vida pareça tão simples, e nós sejamos malditos seres humanos que complicam tudo.
Somos humanos, criaturas terrivelmente hábeis em complicar o simples. E há dias em que as nuvens negras desabam sobre nós, arrastando-nos para o fundo dos nossos próprios labirintos, por mais que o amor de quem está perto tente nos puxar para a superfície. Nesses momentos, a filosofia barata desaba e resta apenas a carne, o osso e a coragem crua.
Não me meço pelos escombros deixados no caminho, mas pela teimosia em abrir novas veredas na mata fechada. Não me resumo às desilusões que coalham o peito, mas ao fôlego novo de perdoar e recomeçar. O que sou não cabe na duração de um amor que acabou, mas transborda no tamanho da entrega, na disposição insensata de voltar a amar. Caí, é verdade. Mas o que me define não é o tombo, é o esforço desajeitado e lindo de me erguer de novo, com os joelhos ralados e o coração intacto.
Não sou a minha dor. Não sou os escombros do passado. Sou o que restou e o que floresceu depois do incêndio — herdeira da coragem que meus pais me sopraram na alma e da inteligência que meus amigos refletem em mim como um espelho terno.
© Beatriz Esmer
