Ele anda na ponta dos pés pelo quarto, como quem tem medo de espantar o pó dos móveis ou o restinho de ar que me restou. De vez em quando, deixa cair migalhas discretas, gestos medidos de quem espera que eu dê mais um passo, que eu me arraste para perto da sua luz, que eu aceite a mão estendida como um abrigo seguro.
Mas há quedas que acontecem tão lá do alto, de ninhos tão antigos, que a gente esquece o cheiro das árvores e o gosto do vento livre. Caiu-se tempo demais atrás. O que restou não cabe em gaiolas, por mais douradas e macias que sejam as grades. Não há domesticação que alcance um bicho que aprendeu a conviver com o próprio abismo.
Sou este pássaro perdido, trêmulo, de asas quebradas cujos ossos se soldaram tortos, sem promessa de cura. E entre nós há uma vidraça invisível, implacável. De um lado, respiro o frio do meu silêncio; do outro, ele me olha através do vidro, querendo aquecer o que já aprendeu a ser pedra.
© Beatriz Esmer
