O amor começa antes de ser nome. Há nele uma espessura de coisa cega, um tatear no escuro que não pede licença para doer. Amar-te assim, sem que soubessses e quase sem que eu soubesse, foi habitar o reverso das palavras. No lado avesso do meu silêncio, encontrei uma raiz que crescia sozinha, alimentando-se da própria umidade secreta da alma. Era um amor quase físico, como o toque pesado da lua roçando lábios entreabertos na noite úmida.
Eu te inventava com a precisão dos desesperados. Cada dia era uma caçada sutil a uma sombra que ainda não tinha rosto, mas já possuía o peso de uma ausência definitiva. Como se ama o que ainda não nasceu? Eu descobri. Amava-te no oco do meu peito, nessa vigília áspera onde os sonhos não passam de estilhaços de esperança. Não havia promessa, não havia pacto; havia apenas a urgência desmedida de te guardar dentro de mim, inteiramente intocado pelo tempo.
©️ Beatriz Esmer
