O Peso da Presença

Não, eu nunca quis um homem perfeito. A perfeição, ora, é um espelho embaçado onde a gente não se reconhece. A perfeição exige uma coreografia sem um único passo em falso, e o que é a vida senão um tropeço contínuo e glorioso? Eu não queria um palco, queria apenas a sala de estar, com suas xícaras de café meio frias e a poeira dançando no sol da tarde.

Eu queria, e isso me parecia tão simples, tão humilde quanto um grão de areia, alguém que soubesse ficar. Alguém que, diante da primeira tormenta – daquelas que não trazem chuva, mas um silêncio pesado, opaco –, não corresse para o abrigo mais próximo. Eu precisava de uma permanência. De uma âncora que não me prendesse ao fundo, mas que me desse a segurança de não ser levada pela correnteza das minhas próprias incertezas.

Eu não queria apenas ser ouvida, eu queria ser lida. Lida nas entrelinhas, nas vírgulas suspensas, no ponto final que nunca é final. Eu queria alguém que, após uma discussão – dessas que nos deixam a alma em carne viva –, não batesse a porta, mas se sentasse na ponta da poltrona e tentasse decifrar o meu silêncio. Um silêncio que, muitas vezes, é apenas um grito contido, uma súplica muda por um carinho que não precisa de palavras.

Eu queria alguém que, ao me ver sorrir – aquele sorriso amarelo, de quem já pediu desculpas antes de cometer o erro –, soubesse, com uma intuição quase dolorosa, que por trás daquela máscara social, a minha alma estava chorando. Não de tristeza, mas de um cansaço ancestral, de quem luta consigo mesma todos os dias para continuar existindo.

Foi preciso chegar até você, meu amor, para compreender o que é o amor verdadeiro. Ele não é feito de grandiosidades, de poemas épicos ou de viagens transatlânticas. Ele não se veste de seda nem de cetim. Ele é, na verdade, muito mais prosaico. Ele é a mão que segura a sua quando a sua própria mão está tremendo. É o olhar que te encontra na multidão e te diz, sem som: “Eu te vejo. Você não está sozinha.” É o “bom dia” que não pergunta nada, apenas existe, como o sol.

E se, um dia, eu me calar, se a minha voz se tornar um mero sussurro e o meu riso, uma sombra… por favor, não pense que o meu amor por você diminuiu. Não pense que a chama se apagou. Acontece que o meu coração, esse pequeno motor que nos empurra para a vida, às vezes, se cansa. Ele se cansa de tatear no escuro, de procurar um sentido que não está lá, de carregar o peso de um mundo que não entende.

Mas, mesmo nesses momentos de exaustão, quando a alma se recolhe em seu próprio casulo, o meu coração continua a te escolher. Ele te escolhe no meio do silêncio, na penumbra, na certeza de que você é o único porto onde ele pode ancorar e respirar, finalmente, em paz. E isso, meu querido, é a prova mais irrefutável e bonita de que o amor não precisa ser perfeito. Ele só precisa ser. E ser, para mim, é estar ao seu lado.

© Beatriz Esmer

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