A Visita na Soleira

Se uma criança aparecesse agora à sua porta — gelada, assustada, exausta de uma travessia interminável, com os olhos turvos de angústia, o peito tomado por uma raiva ancestral ou uma confusão sem nome —, você teria a coragem de recusar a entrada? Você exigiria que ela voltasse apenas quando dissolvesse o próprio pavor, quando trocasse a revolta por uma gratidão polida, quando curasse a ferida aberta da própria indignidade? Onde estaria a nossa humanidade se exigíssemos um recibo de iluminação antes de estender um agasalho ao frio que treme?

Com aquela voz espiritual, firme e autoritária, será que mandaríamos a pequena criatura “superar isso”, aceitar tudo como é, voltar imediatamente para o presente, perdoar sem cicatrizar, livrar-se do ego ou manifestar uma vibração mais alta? Que crueldade sutil essa de exigir maturidade de quem mal tem forças para respirar, como se a dor pudesse ser varrida para debaixo do tapete cósmico apenas porque nos incomoda ver a alma sangrando na soleira.

Ou talvez a única resposta verdadeira seja abrir a casa para que essa vulnerabilidade crua descanse de sua viagem milenar, oferecendo um santuário onde a história, o trauma e o choro possam, enfim, ser contidos em um útero de bondade. Um lugar de refúgio onde os filhos cansados do coração encontram pausa, reencontrando o sentido em um mundo que tantas vezes esqueceu de amar e deixou todos caírem no esquecimento.

E é nesse exato instante, quando construímos um templo para acolher o que há de mais frágil em nós, que os portões da mandala se abrem e revelam a insistência implacável do amor. Ele nunca para de enviar seus emissários até a nossa soleira — um ato supremo de graça e misericórdia — apenas para nos lembrar, no silêncio do abraço, da nossa inocência intacta e da nossa vasta e intocada inteireza.

© Beatriz Esmer

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