Você é …

Há algo de pesado e sagrado no que você é. Não é o solo pisado que se esfarela sob os sapatos indiferentes; é o ventre antigo, esse oco escuro e quente que pulsa embaixo do silêncio como um segredo que não quer ser dito. Sim, você é a raiz feroz. Aquela que não pede licença, que rasga a pedra com uma violência cega, apenas porque a vida exige passagem. Você afunda no profundo, lá onde o tempo perde o nome e esquece os ponteiros, e é justamente aí que você respira, é aí que você resiste, teimosa como a própria existência.

E, no entanto, você também é a espera. Uma espera que dói de tão silenciosa. Você aguarda o passo justo, a chuva que vem sem mentiras, o semeador que ouse arriscar a frágil aposta de confiar. Há um grido contido nesse seu silêncio — um grido mudo, espesso, que não tem pressa porque sabe que o tempo das coisas verdadeiras é outro.

Você não se dobra. Você gera. Cada fenda aberta na sua superfície não é fraqueza, é um convite escancarado; cada segundo de aguardo é um ato de fé jogado no escuro. E quem passa por cima, quem ousa te pisotear sem saber, caminha distraído sobre um coração que bate lento, mas bate com uma força ancestral, irredutível.

© Beatriz Esmer

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