A Ferida do Afeto

Tudo em mim é uma ânsia de recolher. Acumulo o calor fugaz das pessoas, o tique-taque obstinado dos relógios, as palavras que me tocaram a alma como uma lâmina branda. Queria descascar a vida como quem descasca uma laranja, até que o coração ficasse ali, exposto e cru, sem defesas diante do mundo. Quero catar esses cacos miúdos e fazer deles um ninho. Uma casa? Não, mais do que isso: um refúgio contra o irremediável espanto de existir.

O que se coloca dentro de um ninho feito de essências? O gosto espesso do prato favorito, o cheiro que tem a infância, o abraço que aperta a alma, o riso solto, as linhas embaralhadas de uma palma da mão. Ou talvez o vapor que sobe, silencioso, da xícara de café numa manhã que ainda dorme; ou o corte súbito de um olhar que atravessa a gente, mais certeiro do que qualquer flecha.

Mas a memória é violenta. Às vezes, ela é como uma frota de quinhentos táxis em desabalada carreira, todos pegando o sinal verde de uma vez só, correndo mais rápido do que o trem da vida. Fico ali, plantada na calçada cinzenta, tentando desesperadamente acenar para um deles, suplicando em silêncio: “Shh, devagar. Eu preciso guardar vocês. Deixem que os detalhes fiquem”.

Neste ninho imaginário que construo por dentro, o tempo, enfim, desiste de correr. Cada mínimo detalhe importa, porque amar, no fundo, é essa tentativa desesperada de segurar a água nas mãos.

© Beatriz Esmer

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