Na escravidão, o chicote estalava no lombo e a pele guardava a cicatriz da verdade: o escravo sabia, sem margem para dúvida, que era escravo. No feudalismo, o suor pesado abono da terra alheia, o servo sentia o peso do castelo nas costas e sabia que era servo. No capitalismo industrial, a chaminé cuspindo fumaça preta e o relógio batendo o ponto eram testemunhas irrefutáveis: o operário sabia que era operário.
Mas veio o capitalismo neoliberal, e com ele a obra-prima da dominação. O truque perfeito. A algema invisível que brilha como troféu.
“Na era do mercado total, o carrasco foi promovido a parceiro de negócios.”
Nenhum outro modo de produção na história humana alcançou grau tão refinado de perfeição ideológica. O sistema não apenas explora; ele convence o explorado de que é o seu próprio patrão.
Hoje, o trabalhador sem direitos, sem férias, sem garantia de amanhã e sem 13º salário olha para o próprio desespero e o batiza de liberdade. Vende o almoço para comprar o jantar, passa noites em claro iluminado pela tela do celular e sorri para a câmera, acreditando firmemente que é um empreendedor.
O desemprego estrutural virou “autonomia”. A precarização extrema virou “flexibilidade”. A solidão da sobrevivência virou “resiliência”.
E assim, o senhor do engenho moderno não precisa mais vigiar a senzala, nem o lorde precisa cobrar o dízimo na porteira do feudo. O trabalhador corre voluntariamente atrás da própria cenoura, convencido de que o horizonte de cartolina é todo seu. Uma obra de arte do cinismo: o escravo que paga pela própria corrente e ainda agradece pela oportunidade de competir na corrida dos ratos.
© Beatriz Esmer
