É curioso como a gente cabe dentro de um suspiro. Entre a estrela fria lá em cima e a terra úmida aqui embaixo, eu simplesmente sou. Sou um sopro frágil, feito de lama e de sonho, desfeito pelo próprio vento do tempo que passa sem pedir licença.
Mas há algo em mim que resiste à lógica da ruína. Dentro desta carne tão pouca, tão breve, mexe-se um bicho antigo. Eu sinto: o pulso dos mundos, o mar batendo na maré, o fogo bruto que pariu o sol. Tudo isso roda aqui dentro. Não como dono, não como coroa, mas como uma dança desmedida e secreta.
Sou pequena, é verdade. Um quase nada. Mas trago o infinito inteiro dentro do espanto. Um punhado de pó que embala o cosmo. E é justamente nessa contradição funda, nesse desencontro que me inventa, que eu, enfim, desabrocho.
© Beatriz Esmer
