Manual Prático do Canalha

É um modo de ser que quase dói de tão preciso. Não se acorda canalha da noite para o dia; exige-se uma gestação lenta, feita de silêncios longos, de cafés frios e de uma paciência quase botânica para cultivar a ruína nos outros.

Olho para ele e vejo o peso de uma graça torta. Ele não quer apenas o corpo — o corpo é tão pouco, é quase um mal-entendido da carne. Ele quer a alma, mas quer a alma para usá-la como quem desfolha uma margarida distraidamente na varanda, enquanto pensa no próximo verso. A poesia nele não é redenção; é a arma mais refinada da caça. Usa o verso como quem estende um tapete macio sobre o abismo. E a mulher, coitada, pisa macio, achando que caminha para o altar, quando na verdade caminha para o nada.

Ele tem essa urgência de ser eterno durantes os dez minutos em que a conquista acontece. Depois, há o silêncio pós-posse. O livro lido, fechado, jogado sobre a poltrona. Ele não odeia a mulher; ele apenas a esgota com a mesma velocidade com que consome o próprio fôlego. Para ele, todas as mulheres são uma só mulher, e essa mulher é apenas o pretexto necessário para que ele continue dialogando com o próprio espelho.

Há uma beleza repulsiva nisso. A forma como ele mistura o sagrado e o lixo, o lirismo de quem toca harpa e a frieza de quem assina uma sentença de despejo com um sorriso nos lábios. Ele se deita na cama da poesia e convida a presa para o sacrifício, sussurrando palavras que parecem eternas, mas que já nascem com prazo de validade vencido.

No fundo, ele tem pena de si mesmo, mas ama essa pena. É um solitário que coleciona nomes e números de telefone como quem coleciona cinzas. E a gente se pergunta: o que resta desse homem quando acaba a última palavra?

© Beatriz Esmer

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