A resistência do instante

A vida é uma desobediência. Sim, uma rebelião profunda, quase secreta, contra a chatice do cotidiano. Ela cospe nas expectativas alheias, tem uma falta de respeito visceral pelo ordinário e um atrevimento diante do que é previsível. É um convite feroz ao desconhecido, uma aventura audaciosa que me espreita e me chama em cada nascer do sol, como se o dia estivesse me segredando um segredo proibido.

Ah, e essa pornografia dos sentimentos… crua, sem filtros, sangrando na mesa da sala. Mas, ao mesmo tempo, guarda uma modéstia feroz em seus silêncios mais quentes, um equilíbrio frágil entre os extremos de ser e não ser. A vida é um encontro marcado com o destino, um esbarrão terno e violento com o imprevisto, uma bofetada de retaliação contra as amarras que tentam me prender a um chão que eu recuso pisar.

Ela é um poema torto. Um tecido de palavras alinhavadas a pulso, costuradas com um amor que é defeituoso, falhado em sua própria perfeição — mas é meu, profundamente meu. É um pôr do sol que dói, uma beleza passageira que pinta o céu de esperança e de uma melancolia mansa. E é este corpo aqui, carcaça e templo, vaso de todas as vivências, tela suja de memórias que teimam em não se apagar.

A vida tem gosto de café: um elixir agridoce que estapeia a alma e a desperta à força, um instante de paz no meio do caos que racha as paredes. É a impotência pura, o desamparo escancarado que me lembra a vergonha de ser tão vulnerável. E, ainda assim, é a promessa teimosa de um amanhã. O recomeço. A chance estúpida e linda de reescrever a minha própria história, mesmo com as mãos tremendo. 🙏🏾❤️

© Beatriz Esmer

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