Hoje eu não quero falar de poesia. Não venha com essa história mofada de ser positiva, não, não! Não quero falar de flores, de pores de sol, de leveza, de ventos que fazem as folhas dançarem ao entardecer. Hoje o dia não tem claridade; tem o peso denso de uma pedra no estômago.
Hoje eu quero sangue, grito, rasgar meu próprio peito com as unhas, ver minhas vísceras expostas sobre a mesa fria da cozinha, tentar encontrar dentro de mim — ou nas entranhas do mundo — algo que ajude a entender a imbecilidade humana. Essa coisa opaca, densa, que se recusa a pensar.
Cinquenta e cinco milhões.
Exatamente 55 milhões de pessoas. Elas escolheram o miliciano, o criminoso, o misógino, e toda uma vasta constelação de adjetivos impublicáveis que queimam na boca como ácido. Olho para esse número e ele me olha de volta, mudo, implacável, monstruoso em sua massa inerte. Como se compactassem a própria dor de existir em um voto no escuro. O que há na alma humana que deseja o abismo com tanta sede? O que empurra a mão de tantos para a assinatura do próprio estrangulamento?
Não há metáfora que baste. Há apenas o espanto. O assombro. E o silêncio que se segue ao grito que não encontrou eco.
© Beatriz Esmer
