O Fio Sutil da Corda Bamba

É espantoso…
Esse modo quase sussurrado, quase trêmulo, com que alguns confessam a própria ruína. Dizem que a religião é a coleira, o freio, o único muro que os separa do abismo. E não percebem a confissão terrível que há nisso. É um desabafo involuntário: “Sem os olhos de Deus a vigiar-me do alto, sem a mirra e o chicote do além, eu faria em pedaços o meu irmão”.
Meu Deus, que confissão de barbatanas e dentes!

Eles chamam isso de piedade. Eu chamo de desespero. Porque a virtude, quando precisa de algemas celestes para existir, deixa de ser virtude — vira apenas obediência de cão acuado. É o medo fantasiado de santidade. Um espantalho fincado no meio da alma, agitando trapos velhos para espancar os próprios lobos que habitam lá no fundo.

Mas o que é um homem que só sabe ser brando porque tem pavor do fogo? Que alma é essa que precisa traficar a esperança de um prêmio para conseguir, ao menos uma vez, estender a mão?

A moral verdadeira… ah, a moral verdadeira é um peso silencioso. Ela não grita nos altares, ela não treme diante de portões dourados. Ela nasce do oco do peito, desse assombro imenso que é olhar para o outro e reconhecer ali um pedaço de si mesmo, sangrando a mesma dor. Terceirizar a bondade a um mandamento divino é um modo elegante de lavar as mãos, de pedir demissão da própria humanidade. É a rendição da consciência.

E, no entanto, insistem. Como se fosse uma trincheira elevada, um triunfo do espírito. Não é. É o porão. O subsolo escuro onde o ser humano engatinha, agarrando-se à última migalha de decência por puro pavor de ser o monstro que teme ser. 😉

© Beatriz Esmer

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