Que a alma, essa coisa desatinada que a gente carrega sem saber muito bem o porquê, encontre um amor que seja como uma lareira acesa no meio do mundo. Um calor que nos desmanche por dentro e traga um sossego quase indizível a esta algazarra que é viver.
Que haja espantos de alegria bem no meio do nosso tédio cotidiano. Alguém por quem a gente esporeie o tempo, alguém cujo nome, no meio da multidão barulhenta, nos fira como um verso de beleza intocável. Uma música que teima em não calar, o passo certo na dança trôpega dos dias.
Ah, ter alguém para acordar a manhã. Alguém com quem sonhar quando a noite desaba pesada.
Uma mão firme para atravessar o tropeço, um ombro onde a cabeça desaba cansada de tanto ser forte, e um abraço… meu Deus, um abraço que justifique o fardo de estar vivo. Porque é assim: a gente vai alinhavando os dias e, de repente, já estamos escrevendo a história de uma vida inteira, com uma certeza cega que teima em rir das nossas próprias dúvidas.
E quando a noite for a mais escura, aquela que assusta, há de restar sempre uma janela acesa. Uma fresta de esperança, um porto seguro. Um santuário que nos puxa de volta pelo fio invisível da saudade, oferecendo a paz suave depois que a tempestade mais feroz finalmente se cala. Nossas vidas, costuradas pelos dedos irresponsáveis do tempo, viram isso: um tecido feito de instantes divididos e nós que nenhum vento consegue desatar.
© Beatriz Esmer
