A Verdade

A verdade pode ser velha e feia, mas de coração bondoso.Pode ser prato rachado com comida apetitosa; gosto amargo que serve de remédio.Pode ser sombra que acolhe ou que assusta no quarto de dormir.É porta imensa que não porta fechadura.Rosa de espinhos afiados.Pode ser tostão que nem sempre cabe no bolso. A verdade é irmã mais velha da mentira — que dela se serve para parecer sensata.É rainha, mesmo sem reino.É reino, mesmo sem súditos.É súdito, mas inteiro senhor de si. A verdade é aquela cuja contradição também é verdadeira.São os olhos dos que muitas vezes não se veem.Mãe de … Continue reading A Verdade

O Sonho Colonial dos Falsos Patriotas

Caminha o cidadão de bem pela sala de estar, a testa vincada pelo ódio de estimação que cultiva com esmero. Para ele, o verdadeiro flagelo nacional não reside nas engrenagens da desigualdade, mas sim naquele homem que ousou desenhar políticas de inclusão. Incomoda-lo profundamente o Bolsa Família, o SAMU, o Gás do Provisório, o ProUni, o Farmácia Popular e a expansão das universidades. Cada uma dessas portas abertas aos marginalizados soa para o reacionário como um insulto à sua frágil sensação de privilégio. Em contrapartida, esse mesmo espírito crítico silencia — ou pior, bate palmas — quando o escolhido da … Continue reading O Sonho Colonial dos Falsos Patriotas

O tamanho do amor

Pode parecer que hoje é apenas mais um dia comum, numa vida comum, sobre uma estrela qualquer. Acordamos com a manhã e já nos debatemos na dúvida. Não tenho eu alguns problemas urgentes a resolver? Tenho quase certeza de que há algo errado, fora do lugar, um tanto torto. Não há? Não há alguém que eu precise urgentemente me tornar? Alguma pendência a desatar? Algo a mudar, transformar, manifestar, despertar, curar? Como é fácil dar de barato que o amanhã virá, que teremos outra oportunidade de presenciar o nascer do sol, de caminhar sob a chuva, de escutar, pasmados, os … Continue reading O tamanho do amor

The Epitaph of Departure

She left to look for her peace and never returned—not because she found it, but because she hadn’t yet seen it, nor felt it, nor smiled. She only cried. And after so much killing, so much crying, and so much suffering, she decided to die. To die without peace. To die in anguish, without knowing how to die. Without knowing how to save; without knowing how to be born. She blamed the seed that failed to sprout; the sun that refused to rise; the heart that skipped its beat; the bad luck she had chosen; the bitter taste of her … Continue reading The Epitaph of Departure

Rainy Days

It’s one of those beautiful rainy days when the entire house seems to echo with the force of the sky’s frustration. The raindrops are falling like uncertain poems written by shaky fingers tap tap tapping on ancient typewriters. The windows are fogged and my feet are cold but there’s music in the air and there’s the warmth of coffee and candles that keeps me alive. Today I painted my eyes with dark kajal. Today I folded myself into vanilla raspberry sheets. Today the church bells still ring loud and true with an unfaltering rhythm. Last night I couldn’t sleep too … Continue reading Rainy Days

Where Time Has No Home

I long to live in someone’s memory, to leave a footprint on the fragile glass of another soul’s duration. And yet, what is memory after all? A ghost that haunts a hallway, a breath misting on a cold window before it vanishes entirely. I long to live upon a hill, high and exposed to the fierce, indifferent wind, where the sky feels vast enough to swallow the quiet terror of existing. And it doesn’t matter that I know I never will, because the longing itself is already a form of possession, a sharp and burning ache that proves I am … Continue reading Where Time Has No Home

A Visita na Soleira

Se uma criança aparecesse agora à sua porta — gelada, assustada, exausta de uma travessia interminável, com os olhos turvos de angústia, o peito tomado por uma raiva ancestral ou uma confusão sem nome —, você teria a coragem de recusar a entrada? Você exigiria que ela voltasse apenas quando dissolvesse o próprio pavor, quando trocasse a revolta por uma gratidão polida, quando curasse a ferida aberta da própria indignidade? Onde estaria a nossa humanidade se exigíssemos um recibo de iluminação antes de estender um agasalho ao frio que treme? Com aquela voz espiritual, firme e autoritária, será que mandaríamos … Continue reading A Visita na Soleira

O Peso da Presença

Não, eu nunca quis um homem perfeito. A perfeição, ora, é um espelho embaçado onde a gente não se reconhece. A perfeição exige uma coreografia sem um único passo em falso, e o que é a vida senão um tropeço contínuo e glorioso? Eu não queria um palco, queria apenas a sala de estar, com suas xícaras de café meio frias e a poeira dançando no sol da tarde. Eu queria, e isso me parecia tão simples, tão humilde quanto um grão de areia, alguém que soubesse ficar. Alguém que, diante da primeira tormenta – daquelas que não trazem chuva, … Continue reading O Peso da Presença

Le Souffle et la Trace

Il ne reste rien. Rien, sinon le vent. Ce vent invisible qui a traversé notre histoire comme une respiration, un souffle tantôt caressant, tantôt d’une violence aveugle, un de ces vents qui arrachent les mots de la bouche et laissent l’âme nue. Je regarde ce qui fut nous, et je cherche le poids des choses. Mais les choses s’effritent. Il ne reste que le mouvement de l’air, ce mystère insaisissable qui continue de frôler nos mémoires avec la persistance d’une hantise. C’est presque insoutenable, cette manière qu’a le passé de ne pas mourir, de se réinventer sous la forme d’une … Continue reading Le Souffle et la Trace

O Avesso da Ausência

O amor começa antes de ser nome. Há nele uma espessura de coisa cega, um tatear no escuro que não pede licença para doer. Amar-te assim, sem que soubessses e quase sem que eu soubesse, foi habitar o reverso das palavras. No lado avesso do meu silêncio, encontrei uma raiz que crescia sozinha, alimentando-se da própria umidade secreta da alma. Era um amor quase físico, como o toque pesado da lua roçando lábios entreabertos na noite úmida. Eu te inventava com a precisão dos desesperados. Cada dia era uma caçada sutil a uma sombra que ainda não tinha rosto, mas … Continue reading O Avesso da Ausência