A Liturgia do Peito

No meu peito, a vida não se pede licença; ela se instala com o peso sagrado das coisas antigas. Meu coração tem catedrais imensas, dessas de teto alto onde a poeira brilha no feixe de luz que atravessa o vitral, desenhando santos no chão de terra batida. São templos de priscas e longínquas datas, erguidos antes mesmo de eu saber que existir era esse ofício de sustentar o eterno no que é perecível. Ali, entre o cheiro do café coado e o mofo das sacristias, um nume de amor, em serenatas, desata o nó da garganta e canta a aleluia … Continue reading A Liturgia do Peito

Disparaître complètement pendant un jour ou deux, s’immerger dans son âme…

Ne pas voir d’amis, ne pas répondre au téléphone, juste prendre le week-end pour disparaître. Explorer les petites cavernes cachées en soi qui ont été fermées il y a des années. Relire d’anciens journaux de lycée et se souvenir des choses que l’on a traversées. Se rappeler à quel point on était merveilleusement plein d’espoir et naïf. Prendre quelques heures pour préparer son plat préféré. Boire la moitié de la bouteille de vin en cuisinant, et le reste pour le dessert. Écouter toute sa collection de disques en se déversant sur le papier. Écrire des poèmes douloureusement honnêtes ou dessiner … Continue reading Disparaître complètement pendant un jour ou deux, s’immerger dans son âme…

O Abrigo de Vidro e Osso

E agora, Bia? A festa não houve, mas o frio chegou.Então, com a paciência dos que sabem que o tempo é um bicho lento,eu levanto um esconderijo improvisado entre as minhas próprias costelas.É uma casa feita de arquitetura interna,onde o teto é o esterno e as paredes são o que sobrou de mim.Para esquentar o que o mundo resfriou,não busco lã nem fogo alheio.Estendo sobre a alma cobertores tecidos com minhas palavras favoritas:substantivos que me ancorem, adjetivos que não me firam,e aquele verbo — ser — que insiste em não conjugar no pretérito.Ali, no escuro morno do meu próprio peito, … Continue reading O Abrigo de Vidro e Osso

Collective of Souls

I am a collective of souls. I am all their hopes, all their dreams. I am both their greatest disappointment and most cherished possession. I am everyone and everything. Or at least it used to feel as if I had to be. I am. Whatever that means. Whatever that is. I don’t know. Once I was a daughter. Once I was a friend. Maybe even an enemy. Once I was a lover. Once I was comfort. Once I was anger. Once I was an inspiration. Once I was nothing. Once I was all. And now I am. I am less … Continue reading Collective of Souls

O Instante do Clarão

Há um silêncio que precede o desastre, e esse silêncio é Deus. Eu olho para o vazio e o vazio me olha de volta com olhos de lince, esperando que eu finalmente desista de ser uma forma inteira. Porque ser inteira é uma mentira das molduras. O que eu sou, de verdade, é esse gás esparso, essa poeira de nada que flutua no escuro, fingindo que não tem medo da gravidade. Dizem que o universo é uma ordem, mas eu sinto que ele é uma fome. E para que a luz deixe de ser um ensaio e se torne um … Continue reading O Instante do Clarão

O Sagrado Não-Saber

Às vezes, o que eu não sei é tão vasto que se torna a minha própria pele. Eu não sei de quase nada, e esse não-saber me arranha a garganta. Como explicar o veneno que governos destilam sobre seu próprio povo? É uma lucidez fria que me escapa. E as crianças, ah, as crianças, que caem sob o peso de um metal que cospe morte, segurado por mãos que ainda guardam o cheiro do giz e do pátio. São meninos matando meninos, e o ferro é mais pesado que a alma. Sinto o mundo oscilar. O planeta cambaleia, um gigante … Continue reading O Sagrado Não-Saber

Wandering Hope

The walls of the room are not just walls; they are the skin of a day that refuses to end, or perhaps, a day that has already ended without telling us. You see, it is quite simple. I can love here, quietly, in this corner where the dust motes dance like microscopic jazz musicians, until there are no days left, until the calendar becomes a blank notebook and the clocks decide to stop their rhythmic interrogation. To love in hopes is a dangerous geometry, but I do it anyway. I love the hours as if they were glass beads, and … Continue reading Wandering Hope

O Essencial

Nas entranhas desse silêncio que me habita, onde o tempo não urge mas escorre, encontro o que não ousei buscar: meu santuário. É um lugar sem relógios, uma geografia de esperas. Ali, eu amo. Amo sem a pressa imposta pelo mundo, até que o último sol se apague, derramando seu ouro líquido sobre o que é efêmero. O que eu sinto não cabe em monumentos. Meu amor é feito de uma matéria quase invisível, fios de esperança tecidos no cansaço de cada hora. É um amor que vibra no ar, um segredo que a pele entende antes da mente. Ele … Continue reading O Essencial