Antes que o Café Esfrie

Olhou-se no espelho e não se viu inteira; viu-se em estilhaços luminosos. Ela já se perdeu algumas vezes do caminho. Mas o que ninguém entende — e como poderiam? — é que perder-se é também uma forma de tatear as bordas da própria existência. Foi precisamente ali, quando estava perdida, que foi o momento em que ela se reconheceu mais. Há uma lucidez quase cruel no erro. Estar perdida é não ter amarras, e o vazio, ela sabia bem, é cheio de possibilidades. Seus dias já foram mais carregados, pesados de uma matéria cinzenta e burocrática. Hoje, a carga mudou … Continue reading Antes que o Café Esfrie

O Avesso do Espelho

Agarrei-me a ilusões como se pudessem repousar no horizonte — mas o horizonte, sabe-se, é uma linha que foge quando a gente se aproxima. É o cansaço de ser eu que me faz assim: mestre em transmutar o insuportável. Transformo mentiras em verdades, ou pesadelos em sonhos bons, apenas porque a crueza das coisas me queima os olhos. É quase um milagre doméstico, essa alquimia de sobrevivência, mas que cobra o seu preço na carne. Encanto-me com tantas reflexões e esqueço quem sou. Perco-me no labirinto dos meus próprios pensamentos, esses bichos soltos que me habitam. Olho para a parede … Continue reading O Avesso do Espelho

O Retorno de Mim

Às vezes, o outro falha. Falha tanto, e com uma insistência tão cruel, que nos deixa vazios. Entregamos o mundo inteiro em suas mãos — um mundo feito de carne, de tempo, de silêncio — e eles o rasgam. Rasgam sem pressa, como quem brinca com o que é sagrado. Fazem promessas que logo se partem no chão, com aquele barulho seco de vidro quebrado. E o que sobra de nós?O espanto. E, no entanto, há essa insistência quasemilagrosa — ou seria uma burrice da alma? — que nos faz continuar dando. Continuamos a estender as mãos, esperando que um … Continue reading O Retorno de Mim

O Tic-Tac do Pertencimento

Procuro uma casa, mas não me venham com tijolos, não me tragam o peso morto da madeira assentada sobre a terra. O que busco não tem teto, tem mistério. Procuro um lugar de pertencimento, esse espaço perigoso e exato onde o ser simplesmente é, desdobrando-se em sua própria e dolorosa liberdade, até que a alma, cansada de si mesma, possa finalmente repousar. Eu sinto — e Deus, como dói sentir — que não sou como os outros. Carrego em mim um ritmo desalinhado, uma luz oblíqua e quase insuportável que os olhos comuns não sabem ler. Que tipo de lar … Continue reading O Tic-Tac do Pertencimento

The Intimate Dissolving

I look at the hand holding the pen, and for a moment, I do not know whose hand it is. It belongs to the room. It belongs to the silence that breathes between the furniture. We have spent so much time—centuries, perhaps, or just since this morning—trying to separate ourselves from the stucco of the walls, from the damp soil outside, from the person sitting across the train car. What a strange, exhausting fatigue it is, this modern sickness. The disease of wanting to become special. We walk through the world like children demanding a mirror that reflects only us, … Continue reading The Intimate Dissolving

The Ribalta of Being

The stage is empty, but it is not vacant. It is heavy with the weight of things left unsaid. Look how cold the silence of your body is, abandoned in the wings of poetry. To be tucked away in the backstage of words is a dangerous thing. It is a sterile safety. You hide there, wrapped in the velvet dust of metaphors, thinking you are protected from the terrifying act of existing. But you are freezing. I see you shivering in that dark corner, a soul refusing its own skin, waiting for a cue that you have already missed. Poetry … Continue reading The Ribalta of Being

O Avesso do Deserto

Crescemos ouvindo que o amor exige sacrifício. Que o belo está no mistério, na busca incessante, no enigma quase metafísico de decifrar alguém que insiste em se manter trancado em sua própria redoma de vidro. Olho para essa redoma e sinto uma náusea sutil: a urgência de tocar o que está atrás do vidro, sem perceber que o vidro é apenas um limite frio. Passamos boa parte da vida acreditando que a profundidade de um sentimento se mede pelo tamanho do trabalho que ele dá para florescer. Que tolice fecunda. É a alma que se dilata na dor para fingir … Continue reading O Avesso do Deserto

Mon âme de papier

Je suis lié, feuille après feuille. Des mains humaines m’ont façonné dans le silence de la nuit, bien avant que l’électricité et les automobiles ne soient imaginées. Sang, sueur et patience ont marqué ma naissance. Je suis le dernier noir de charbon, et pourtant la flamme même de la bougie qui éclairait mon créateur pourrait me engloutir. Je suis une création, une chose infime. Des doigts ont effleuré mes lignes, me transmettant de père en enfant, d’amant en amant, d’inconnu à inconnu. Maintenant, je suis là—cette présence immédiate, nichée parmi des piles de bois grouillant de lépismes. Je suis là, … Continue reading Mon âme de papier

Reshaping

I reshaped my verses, transforming them into beacons of solace, dispatching messages of comfort across the expanse of silence. With careful hands, I reassembled the stanzas, each line a tender stitch in the fabric of my spirit, allowing this soul to mend its frayed edges with time’s gentle touch. I altered the cadence of my rhymes, transfiguring them into mirrors reflecting the essence of my being. Upon the parchment of this poem, I etched my mark, a testament to change and continuity. For within these words lies the inevitable truth that all things, like verses and seasons, must find their … Continue reading Reshaping

Henri Salvador

J’aimerais tant voir SyracuseL’île de Pâques et KairouanEt les grands oiseaux qui s’amusentÀ glisser l’aile sous le ventVoir les jardins de BabyloneEt le palais du grand LamaRêver des amants de VéroneAu sommet du Fuji-YamaVoir le pays du matin calmeAller pêcher au cormoranEt m’enivrer de vin de palmeEn écoutant chanter le ventAvant que ma jeunesse s’useEt que mes printemps soient partisJ’aimerais tant voir SyracusePour m’en souvenir à ParisSyracuseSyracuseSyracuseSyracuseSyracuse….❤🎶🎵 Continue reading Henri Salvador