Eles me disseram — com essa leveza de quem distribui conselhos que não lhes custam nada — que eu deveria despejar o meu coração em tudo o que fizesse. Como se o coração fosse um jarro, ou uma jarra de água fresca, ou talvez um poço de reserva inesgotável. E eu, que sempre fui um pouco tola diante da vida, obedeci. Obedeci com uma voracidade quase animal.
Despejei. Despejei e despejei e despejei. Deixei que a substância do que sou — essa coisa viscosa, pulsante, irremediável que chamam de coração — escorresse pelas frestas das horas, pelas dobradiças dos dias, pelos poros das paredes. Não poupei nada. Fui um transbordamento contínuo, uma inundação de mim mesma sobre o mundo seco.
E agora? Agora eles vêm, aproximam-se com essa curiosidade de quem olha um fenômeno de circo, e me perguntam, com os olhos arregalados de incompreensão: por que tanta paixão? Por que essa intensidade, essa fome, essa urgência em tudo o que toco?
Eles não entendem que, ao esvaziar o que guardava, tornei-me o próprio conteúdo.
Pergunta-se por que sou tão cheia dessa coisa chamada amor. Mas não é que eu esteja cheia. É que eu não tenho mais margens. O que eles chamam de amor é apenas o resultado da minha incapacidade de ser contida. Eu não possuo o amor; eu apenas escapei das barreiras que me separavam das coisas. Estou entupida de mim mesma, entupida do mundo, e a minha única forma de existir, agora que o coração foi todo derramado, é através desse espanto de estar viva e de ser, finalmente, essa coisa insuportável e maravilhosa que eles ainda não aprenderam a nomear sem medo.
© Beatriz Esmer
