Manual Prático do Canalha

É um modo de ser que quase dói de tão preciso. Não se acorda canalha da noite para o dia; exige-se uma gestação lenta, feita de silêncios longos, de cafés frios e de uma paciência quase botânica para cultivar a ruína nos outros. Olho para ele e vejo o peso de uma graça torta. Ele não quer apenas o corpo — o corpo é tão pouco, é quase um mal-entendido da carne. Ele quer a alma, mas quer a alma para usá-la como quem desfolha uma margarida distraidamente na varanda, enquanto pensa no próximo verso. A poesia nele não é … Continue reading Manual Prático do Canalha

A resistência do instante

A vida é uma desobediência. Sim, uma rebelião profunda, quase secreta, contra a chatice do cotidiano. Ela cospe nas expectativas alheias, tem uma falta de respeito visceral pelo ordinário e um atrevimento diante do que é previsível. É um convite feroz ao desconhecido, uma aventura audaciosa que me espreita e me chama em cada nascer do sol, como se o dia estivesse me segredando um segredo proibido. Ah, e essa pornografia dos sentimentos… crua, sem filtros, sangrando na mesa da sala. Mas, ao mesmo tempo, guarda uma modéstia feroz em seus silêncios mais quentes, um equilíbrio frágil entre os extremos … Continue reading A resistência do instante

Saque Colonial

Dizem que o mundo se divide em ordens, classes e degraus de uma escada infinita. Os mapas oficiais inventam números e eufemismos para esconder a grossura das algemas. Inventaram a categoria distante de que países de terceiro mundo não existem, como se a pobreza fosse um capricho do clima ou um erro de cálculo no destino dos homens. Mas a terra tem memória, e a história guarda o rastro do sangue seco nos porões dos navios. O que existe são países que foram saqueados e explorados por séculos de colonialismo. A geografia não condena ninguém à miséria. O que condena … Continue reading Saque Colonial

I am not …

I am no longer a volcano.I am a seething rage of cool existence;a deep burn, one that ignites the soul. A liberating flurry of flames,destroying all to better begin anew.Two steps ahead of the phoenix,I’ve already planted the seedsto help my inner-world flourish. I am no longer at your mercy,but gently pressingagainst the walls of my own being.Reappropriation is like laughter:it bounces off walls,and its imperceptible powerfills your heart with joy;a glitter bombexploding in your soul. A Universe unto myselfmy expansion is continuous.I’ve set my mind freeand let the cage of my pastdissolve like ashes in the wind. I can … Continue reading I am not …

Self & Soul

I don’t know how many souls I have. Each moment brings a new transformation, leaving me feeling like a perpetual stranger to myself. I’ve never truly seen or found the essence of who I am. In my multiplicity, I am left with only my soul, a restless entity. A man with a soul finds no peace, for he is constantly in flux. A man who sees is confined to his vision, and a man who feels is not defined by his emotions. As I remain attentive to my being and my perceptions, I merge with them, losing my sense of … Continue reading Self & Soul

Some of us return home in search of what we lost…

For many, the journey is harrowing—because to go back is to remember.To remember what was taken, what must be reclaimed.And for some, it’s not about finding what was lost, but discovering how leaving reshaped them. You realize you’ve changed—so profoundly that you can no longer be held hostage by who you once were.You’ve unlearned the indoctrinations that once defined you, and that can be unsettling for old friends, for those who helped raise you.You are no longer their ideal.To those who cry out that you’ve betrayed tradition, you stand as a quiet rebellion. You are now your own.To shape.To sharpen.To … Continue reading Some of us return home in search of what we lost…

A Grande Ilusão: O Dono de Porra Nenhuma

Na escravidão, o chicote estalava no lombo e a pele guardava a cicatriz da verdade: o escravo sabia, sem margem para dúvida, que era escravo. No feudalismo, o suor pesado abono da terra alheia, o servo sentia o peso do castelo nas costas e sabia que era servo. No capitalismo industrial, a chaminé cuspindo fumaça preta e o relógio batendo o ponto eram testemunhas irrefutáveis: o operário sabia que era operário. Mas veio o capitalismo neoliberal, e com ele a obra-prima da dominação. O truque perfeito. A algema invisível que brilha como troféu. “Na era do mercado total, o carrasco … Continue reading A Grande Ilusão: O Dono de Porra Nenhuma

O Sussurro da Matéria

É curioso como a gente cabe dentro de um suspiro. Entre a estrela fria lá em cima e a terra úmida aqui embaixo, eu simplesmente sou. Sou um sopro frágil, feito de lama e de sonho, desfeito pelo próprio vento do tempo que passa sem pedir licença. Mas há algo em mim que resiste à lógica da ruína. Dentro desta carne tão pouca, tão breve, mexe-se um bicho antigo. Eu sinto: o pulso dos mundos, o mar batendo na maré, o fogo bruto que pariu o sol. Tudo isso roda aqui dentro. Não como dono, não como coroa, mas como … Continue reading O Sussurro da Matéria

Prayer for the Nature

Father, I offer this prayer because You are in my hands just as I am in Yours. You live in my words just as in You I am also a verb. And in my eyes, You are the seed that reveals the color of the fruits, the name of a river that surrenders to the sea, the small child who embraces the mother. Through Your word, I learned to respect the winter, to wait for the spring, and to accept my harvests; I learned to be summer and to fly with the swallows. Bless me as You bless the grain … Continue reading Prayer for the Nature

O Tecido Mudo do Abraço

Há qualquer coisa de lancinante e urgente num abraço. Não é apenas o encontro de dois corpos que se tange; é o instante exato em que a pele decifra o indizível. No centro de cada abraço, essa geometria secreta, habita um universo mudo, um santuário áspero e terno onde o coração, finalmente exausto de tanto lutar, descansa. Você chega e me envolve. E, de repente, o mundo, com sua crueldade cotidiana e seus relógios implacáveis, suspende-se. Nesse curto-circuito do tempo, o corpo sussurra o que a boca tem medo de proferir. Há uma brisa suave que atravessa a gente e … Continue reading O Tecido Mudo do Abraço