A Matéria Viva do Avesso

O silêncio da sala ferve de entrelinhas. Você mexe no café, desvia os olhos, e de repente o espaço entre nós se torna um abismo de mal-entendidos cotidianos. Quero te dizer algo que vai além da gramática dos dias úteis. Olha para mim. Por favor, não me trate como se eu fosse comum, nem me repreenda porque não sou. É exaustivo tentar caber nas gavetas que você comprou para mim. Há uma urgência em existir que você, na sua pressa de classificar o mundo, parece não ver. Vire o rosto na minha direção. Olhe para mim quando eu lhe disser … Continue reading A Matéria Viva do Avesso

My love,

How can I even begin to speak? To name the things that heavy my chest would be to ruin them, to turn something wild and formless into rigid words. I cannot tell the woes that inhabit my being. They do not have names; they only have a weight, a slow, thumping pulse that lives just beneath my skin. If I open my mouth to explain, I am afraid only a gasp will come out. Or worse, silence. You see, I am a trap door. I am a threshold. I cannot stay, not because I want to leave, but because I … Continue reading My love,

Migalhas de Mim

Quando eu tinha uns dez anos de idade, comecei a me perguntar como as pessoas diziam adeus quando estavam apaixonadas. Olhava ao redor, procurando a fórmula, o rito. Na adolescência, via os jovens atingidos pelo amor se abraçando nos corredores do ensino médio antes das aulas. Havia uma urgência trágica ali; suas mentes eram incapazes de compreender a eternidade de um terceiro período sem o outro. Um drama pequeno, mas que para eles pesava como o mundo. Em casa, a tradução era outra, mais violenta e ruidosa. Meu pai e minha mãe costumavam dizer eu te amo batendo portas na … Continue reading Migalhas de Mim

My Dear,

You knew, didn’t you? You knew from the very beginning that my heart was not a house, but a haunting. It is a frightening thing to look at someone and see their ruins, yet you did not turn away. Instead, you made a home out of it anyway. You did not ask for repairs; you simply walked inside the dark. You sat near the dying fire of my existence and fed it with your passion, until you became something physical—a searing sensation burning through my veins, an ache that finally felt alive. Your presence, so quiet and yet so absolute, … Continue reading My Dear,

A Árvore & Eu

Olho para as árvores secas no inverno e, de repente, não há mais distância entre o que sou e o que vejo. Sou eu ali, exposta em galhos que parecem ferir o céu cinzento com sua nudez. Quem passa com pressa, com o casaco fechado até o pescoço, enxerga apenas o vazio. Dizem: “está morta”. Como o mundo é rápido em decretar a morte do que apenas silencia! Mas a verdade, essa coisa que me escapa sempre que tento nomear, mas que sinto latejar nas têmporas, não se entrega aos olhos. O visível é quase nada. Por baixo da terra … Continue reading A Árvore & Eu

As Linhas na Palma da Mão

O salão estava imerso naquela penumbra clássica, um tom de chá esquecido na xícara. Olhei para as minhas próprias mãos, percebendo nelas os mesmos nós e os mesmos caminhos de linhas que um dia estudei na palma da mão dela. A memória, esse bicho caprichoso que espreita atrás das cortinas, trouxe o eco das idades. Uma cronologia invisível, desfiada como um colar de pérolas antigas. Aos 5 anos, você diz: “Mamãe, eu te amo…” A infância tem cheiro de Sol e de colônia barata. A voz é um sopro puro, sem arestas. Aos 10 anos, você diz: “Mamãe, eu te … Continue reading As Linhas na Palma da Mão

Mon Chéri e o Espelho Invisível

Mon chéri, olhe para mim. Ou melhor, olhe através de mim, para esse vazio que insistimos em preencher com formas exatas. Sinto uma espécie de melancolia mansa, quase uma náusea, ao ver que você aceitou, sem lutar, esse fardo pesado: o dever de ser mais jovem, mais magra, mais bronzeada, mais alta. Perfeita. Que palavra mais lisa, mon chéri. A perfeição não tem arestas onde a alma possa se agarrar; ela é um deserto de mármore. Eu me desculpo por você acreditar que a vida exige essa geometria rígida. O corpo não foi feito para ser uma moldura estática; ele … Continue reading Mon Chéri e o Espelho Invisível

Petit cœur…

Tant de choses sont contenues dans un cœur au cours d’une vie.Tant de choses sont contenues dans un cœur en une journée, une heure, un instant.Au bout du compte, nous ne sommes totalement ouverts à personne—Ni mère ni père,Ni épouse ni époux,Ni amant, ni enfant, ni ami.Nous ouvrons des fenêtres à chacun,Mais nous vivons seuls dans la maison du cœur. Peut-être est-ce ainsi que cela doit être.Peut-être ne pourrions-nous pas supporter d’être si nus,Par peur d’un cœur sans cesse meurtri. Quand nous sommes jeunes,Nous croyons qu’un jour viendra une personneQui nous chérira et nous soutiendra toujours.Quand nous sommes plus âgés, … Continue reading Petit cœur…

The Alchemy of Dread

It is a terrifying thing, this sudden awareness of the dirt. I fell. I am face down in the soil, and it tastes of dust and my own small failures. My fears do not merely accompany me; they stretch out in the evening sun, long and quiet, like shadows that have grown larger than the body itself. Yet, looking at this scattered debris, I feel a strange, almost violent resolve. It is a mosaic of a soul that yearns—but for what? For transformation. My heart beats with a rhythm that hurts, heavy with the hope of a healthier tomorrow. Fear … Continue reading The Alchemy of Dread