A Ponte de si Mesma

Eu estava ali, diante de uma superfície branca. Não era uma parede, não. Era um quadro, pendurado por um barbante que se assemelhava a um cordão umbilical, frágil e persistente. O quadro, continha apenas três linhas de texto, mas parecia conter o peso de um mundo inteiro. Ou talvez, mais assustadoramente, o peso do meu mundo inteiro. CHORE UM RIO INTEIROA primeira instrução chegou como uma onda, não de palavras, mas de sensações físicas. Chorei. Oh, como chorei. Mas não foi o choro que sai dos olhos. Foi um choro que escorria para dentro. Um rio de tristezas acumuladas, de … Continue reading A Ponte de si Mesma

The Weight and the Infinite

There are sixty-five miles of sky between space and us. One hundred and forty million square miles of ocean. Four.six billion years of a history that happened without our asking. And trillions of street lamps lighting up and flickering, right now, in the solitude of places our eyes will never reach. I look at these numbers and I do not see mathematics; I see a purest vertigo. It is the world existing beyond me, despite me, without needing my consent to be immense. A raw existence that pulses in the dark while I, in my smallness, try only to manage … Continue reading The Weight and the Infinite

August, 2015

Before I love you completely, I will first love your hands—your nails, the scars that resemble sewing lines, mending your body cautiously in an attempt (this time, not failed) to build the perfect human being. First, I will love your tree-branch arms, which transfigure into rivers filled with fury, rushing swiftly toward the end—while I am still in the early missteps of my first steps. I will love every detail, every drop of sweat. I will love every apology, every explanation—every demand, every contradiction. I will love every fruit, every flower—and every thorn. Why not? I will love every single … Continue reading August, 2015

Histórias Mal Contadas

Olho para o muro e o muro me devolve a mim mesma, impiedoso como um espelho que não cansa de refletir o avesso. “Sou vilão de muitas histórias mal contadas.” As letras escorrem em vermelho e preto, uma caligrafia crua, quase obscena de tão sincera, rasgando o reboco desgastado pelo tempo. Ali, na aspereza do tijolo exposto, há uma denúncia. Não do outro, mas da narrativa alheia que nos engole.Quantas vezes caí no erro de existir apenas através dos olhos de quem me lia errado? É um cansaço pesado, esse de carregar a culpa por um enredo que eu sequer … Continue reading Histórias Mal Contadas

Antes das Cores

A beleza não pede licença; ela simplesmente expõe a sua nudez diante do nosso espanto. Olho para a tela do mundo e percebo que as cores podem ser acrescentadas, sim, como quem passa um batom forte antes de enfrentar o espelho, ou como quem joga um manto de tintas sobre a crueza dos dias. Mas a cor é apenas o adereço da alma. A beleza é inata. A beleza verdadeira nasce antes. É anterior ao traço, anterior ao olho que vê. Ela já estava lá, secreta e silenciosa, na própria carne da existência. Há algo de profundamente incômodo e, ao … Continue reading Antes das Cores

My Dearest,

Sometimes, memory behaves like a distracted hand. I look back now and realize I was walking without a map, entirely unaware that with every step, I was dropping my seeds directly into your open hands. We don’t notice when we are giving ourselves away, do we? We simply move forward, leaving trails of who we are in the palms of those who care to watch. And then came time—that quiet, implacable master of all promises. It didn’t ask for permission; it simply altered the winds and changed the sails of my life, steering me into waters I never anticipated. But … Continue reading My Dearest,

The Inventory of Solitude

The clock on the wall ticks with a heavy, deliberate rhythm, counting down the hours of a woman I no longer am. I look at my hands and realize how much they have discarded. I have outgrown so many things, peeling them away like old, damp wallpaper in a house that no longer fits my soul. I have outgrown those blood ties, the relatives who sit in the parlor offering sharp, polished criticisms masquerading as affection, yet vanish into the woodwork the moment the scaffolding of my life requires support. I stepped out of the frame of their unrealistic expectations, … Continue reading The Inventory of Solitude

O Espaço para a Alma Respirar

Guardamos, guardamos sem saber por que, num impulso automático que nos transcende e nos reduz. São gavetas e mais gavetas entulhadas de coisas inúteis, pequenos nadas que acumulamos sob o pretexto covarde do “vai que um dia preciso”. Mas não é das gavetas de madeira que falo. Falo de algo mais secreto, mais vertiginoso. Falo da mente. É exatamente do mesmo modo, com a mesma negligência silenciosa, que preenchemos os vãos da nossa cabeça com um entulho pesado, uma poeira mental que só serve para uma coisa: fazer-nos esquecer. Esquecer do que é essencial. Esquecer da própria vida acontecendo agora, … Continue reading O Espaço para a Alma Respirar

A Matéria Escura do Domingo

Escrito em um Domingo no ano de 1990 Olho para o domingo e o domingo me olha de volta, com aquela sua cara de dia que não sabe bem para onde vai. Chove. Uma chuva miúda, dessas que não lavam a alma, só umedecem o vidro da janela e nos obrigam a olhar para dentro. É um canto perdido na hora, um instante qualquer que ninguém registrou no relógio, mas que aconteceu. O amor acaba num domingo.Assim, sem o estrondo de um relâmpago, sem o drama de uma ópera. Acaba na ponta de um silêncio que se estende pela sala … Continue reading A Matéria Escura do Domingo

O Banho de Mar

Viver não é paciência. O mar não espera que os pés se acomodem à hesitação das ondas. Não se entra na existência como quem testa a temperatura da água com a ponta dos dedos; o morno é uma mentira. Quem hesita, naufraga antes mesmo de molhar os olhos. Há um terror sagrado em se dar conta de que a maré derruba, de que a água gela a alma, mas o medo… ah, o medo não é proteção. O medo é o naufrágio da própria substância. O oceano exige o corpo inteiro. A vida exige o mergulho exato onde o chão … Continue reading O Banho de Mar