1987

Era 1987, ou talvez fosse apenas o tempo desatento de um relógio de parede. Eu, que sou das ciências humanas e me perco no excesso das palavras, tentei ser uma física iniciante. Uma noviça dos átomos. Porque é preciso acreditar em algo invisível: o milagre das mínimas partículas que inventam a cama, a casa, o corpo que nos serve de habitação. Nossos átomos se misturaram em uma confusão de sinapses. A galáxia dele, vasta e estrangeira, colidiu com a minha, deixando um rastro de poeira cósmica. Mas o infinito dele acabou. E quando acabou, foi um rasgo: como se alguém … Continue reading 1987

O Aluguel do Invisível

Pedi que você vivesse no meu coração. Assim, sem preâmbulos, como quem pede um copo d’água para estancar uma sede que não é da garganta, mas do ser. Você disse que sim. Um “sim” curto, seco, desses que carregam dentro de si o peso de mil “talvezes”. Eu quis a segurança burocrática de um contrato, de um viver para sempre. Sugeri um contrato de locação, com cláusulas e garantias, para que o amanhã não me escapasse entre os dedos. Mas você, com essa sabedoria mansa de quem já foi estilhaçado, recusou o papel assinado. Escolheu o dia após dia. O … Continue reading O Aluguel do Invisível

An Book

I found an open book with empty pages – I saw the perfect shadow of a plane within its pages in a surrealist dream bearing clouds – they heaved and reluctantly parted I found a place – a center, a wish I collected musky scents and remnants of clothes dropped on the floor – at times, I discovered smothered words like hidden coins – I held on to these tokens of no worth steadying a flawless fire close to the cause of a deep wound – I assumed the exquisite pain and heady anger found inside the open book baring … Continue reading An Book

Next Door to the Silence

We used to believe they were strangers. We thought Love and Hate lived on opposite sides of the street, separated by the wide, paved certainty of the world. We looked at them from a distance, convinced that to walk toward one was to forever turn our backs on the other. But the years, those silent, hungry thieves, strip away the architecture of our illusions. Now, we see it. They do not live across the street. They are next-door neighbors who share the same plumbing, the same damp foundations. They live in a shared intimacy so profound it is almost obscene. … Continue reading Next Door to the Silence

O Mercado Feroz

“Mãe, do que se alimenta o mercado?” A pergunta pairou no ar como um pássaro hesitante antes de pousar. A mãe, com olhos cansados e mãos calejadas pelo tempo, suspirou: “Da vida dos pobres, meu amor.” O menino franziu a testa, tentando decifrar o peso daquelas palavras. Olhou ao redor, para as prateleiras abarrotadas do supermercado, para os anúncios coloridos que prometiam felicidade em embalagens brilhantes. Viu o homem de uniforme recolhendo os carrinhos, a mulher no caixa contando moedas, o entregador suado equilibrando sacolas. A mãe apertou a mão do filho e continuou a caminhar. Passaram pela padaria, onde … Continue reading O Mercado Feroz

A Mãe do Brasil

“A mãe do Brasil é indígena, ainda que o país tenha mais orgulho de seu pai europeu que o trata como um filho bastardo. Sua raiz vem daqui, do povo ancestral que veste uma história, que escreve na pele sua cultura, suas preces e suas lutas. Nunca vou entender o nacionalismo estrangeiro que muitas pessoas têm. Nós somos um país rico, diverso e guerreiro, mas um país que mata o seu povo originário e aqueles que construíram uma nação, que ainda marginaliza povos que já foram escravizados e seguem tentando se recuperar dos danos. O indígena não é aquele que … Continue reading A Mãe do Brasil

O Verbo Maternar

Para a Psicanálise, ser mãe transborda a biologia. Não se limita a laços de sangue, nem se prende a definições rígidas de sexo ou gênero. MÃE, em sua essência, é uma presença que se traduz em ato, é a arte de cuidar e nutrir, é a disposição de ouvir e sustentar, é o sagrado ato de acolher, olhar e amar. É, acima de tudo, ser o porto seguro que apoia o sujeito em sua corajosa travessia de afirmação no mundo. FELIZ DIA DAS MÃES àquelas e àqueles que, com sua entrega, maternam e fortalecem em cada um de nós o … Continue reading O Verbo Maternar

O Avesso da Vida

Morri, sim. Mas foi uma morte de sala de estar, entre um gole de café frio e o tique-taque de um relógio que insistia em contar um tempo que já não me pertencia. Ninguém notou o velório. Não houve coroas de flores, nem o cheiro pesado do incenso, nem o luto solene das roupas pretas. Houve apenas o esvaziamento.A gente morre quando a palavra trava na garganta e vira pedra. Quando o olhar se fixa no nada e o nada, gentilmente, resolve nos habitar. É uma hemorragia de alma: não mancha o tapete, não assusta as visitas, mas deixa o … Continue reading O Avesso da Vida

O Voo e a Grade

As mulheres são pássaros solitários. Surgem com o amanhecer, não como quem acorda, mas como quem inaugura o mundo. Há nelas uma suavidade que engana; são inquietas, percorrendo os desvãos do dia com uma coragem muda. Voam sobre os obstáculos — esses objetos sólidos e opacos — e, ao passarem, deixam um rastro de canto, uma melodia que é quase uma ferida aberta no ar. Mas o entardecer traz a entrega.À noite, elas recuam. Voltam para suas gaiolas — que podem ser o lar, o corpo ou a própria existência. E ali, no escuro absoluto, o que resta é o … Continue reading O Voo e a Grade

A Alquimia do Despertar

O sonho não é um refúgio para quem quer fugir, mas o rascunho de quem decidiu acordar. Ele foi criado para as manhãs, para aquele instante exato em que a luz encosta no rosto e nos encontra cheios de estranhezas férteis. A palavra? Ah, a palavra é uma feitiçaria técnica. Ela codifica o invisível. Meus devaneios são frutos: têm casca, polpa e tempo de maturação. Eles me pertencem, mas só ganham sentido quando atravessam a fronteira do “eu” para alimentar o “outro”. É o meu próprio sonho que me dá a aula definitiva sobre os pássaros: eles não voam porque … Continue reading A Alquimia do Despertar