A Mãe do Brasil

“A mãe do Brasil é indígena, ainda que o país tenha mais orgulho de seu pai europeu que o trata como um filho bastardo. Sua raiz vem daqui, do povo ancestral que veste uma história, que escreve na pele sua cultura, suas preces e suas lutas. Nunca vou entender o nacionalismo estrangeiro que muitas pessoas têm. Nós somos um país rico, diverso e guerreiro, mas um país que mata o seu povo originário e aqueles que construíram uma nação, que ainda marginaliza povos que já foram escravizados e seguem tentando se recuperar dos danos. O indígena não é aquele que … Continue reading A Mãe do Brasil

O Verbo Maternar

Para a Psicanálise, ser mãe transborda a biologia. Não se limita a laços de sangue, nem se prende a definições rígidas de sexo ou gênero. MÃE, em sua essência, é uma presença que se traduz em ato, é a arte de cuidar e nutrir, é a disposição de ouvir e sustentar, é o sagrado ato de acolher, olhar e amar. É, acima de tudo, ser o porto seguro que apoia o sujeito em sua corajosa travessia de afirmação no mundo. FELIZ DIA DAS MÃES àquelas e àqueles que, com sua entrega, maternam e fortalecem em cada um de nós o … Continue reading O Verbo Maternar

O Avesso da Vida

Morri, sim. Mas foi uma morte de sala de estar, entre um gole de café frio e o tique-taque de um relógio que insistia em contar um tempo que já não me pertencia. Ninguém notou o velório. Não houve coroas de flores, nem o cheiro pesado do incenso, nem o luto solene das roupas pretas. Houve apenas o esvaziamento.A gente morre quando a palavra trava na garganta e vira pedra. Quando o olhar se fixa no nada e o nada, gentilmente, resolve nos habitar. É uma hemorragia de alma: não mancha o tapete, não assusta as visitas, mas deixa o … Continue reading O Avesso da Vida

O Voo e a Grade

As mulheres são pássaros solitários. Surgem com o amanhecer, não como quem acorda, mas como quem inaugura o mundo. Há nelas uma suavidade que engana; são inquietas, percorrendo os desvãos do dia com uma coragem muda. Voam sobre os obstáculos — esses objetos sólidos e opacos — e, ao passarem, deixam um rastro de canto, uma melodia que é quase uma ferida aberta no ar. Mas o entardecer traz a entrega.À noite, elas recuam. Voltam para suas gaiolas — que podem ser o lar, o corpo ou a própria existência. E ali, no escuro absoluto, o que resta é o … Continue reading O Voo e a Grade

A Alquimia do Despertar

O sonho não é um refúgio para quem quer fugir, mas o rascunho de quem decidiu acordar. Ele foi criado para as manhãs, para aquele instante exato em que a luz encosta no rosto e nos encontra cheios de estranhezas férteis. A palavra? Ah, a palavra é uma feitiçaria técnica. Ela codifica o invisível. Meus devaneios são frutos: têm casca, polpa e tempo de maturação. Eles me pertencem, mas só ganham sentido quando atravessam a fronteira do “eu” para alimentar o “outro”. É o meu próprio sonho que me dá a aula definitiva sobre os pássaros: eles não voam porque … Continue reading A Alquimia do Despertar

L’Invention de la Présence

Ta voix me tire du néant à l’aube. Elle n’est pas qu’un son ; elle est un retour brutal à des racines que j’avais oubliées, enfouies sous l’épaisseur du monde. Ta bouche, elle, possède ce pouvoir terrifiant de faire taire les épines. Ces tourments que la saudade hurle en moi s’éteignent enfin. Sous tes contours, je ne suis plus perdue : je deviens une lucidité enivrante, une clarté qui brûle. Je m’expose. Je me livre tout entière à ton ton de soleil, sans défense, étendue sur cet espoir nu, si fin qu’il en devient tranchant. Nous attendons, lui et moi, … Continue reading L’Invention de la Présence

Dust and Ancestral Echoes

In the whispers of the dust, I hear the echoes of my ancestors, a soft murmur that speaks of the village that cradled their dreams. It is within this fine silt that I find the fragments of my being, piecing together the mosaic of my soul. The hues of the earth paint me as a wandering tree, my roots submerged in the memories of a time when water was the cradle of life. With each gust of wind, I am scattered to the corners of the earth, a spectral dance of particles lost in the vastness of the sky. Yet, … Continue reading Dust and Ancestral Echoes

O Avesso do Crepúsculo

Havia uma urgência muda no poente. “Eu amei todos vocês juntos”, sussurra o sol para a lua, num hálito de quem confessa um crime ou uma santidade. Ele arrebenta em carmim e ouro, uma hemorragia de luz que tenta estancar a própria solidão enquanto ela, a lua, desce os degraus para o andar de baixo, em direção ao sono. Mas a lua é apenas metade de um corpo. Há nela uma falta que dói. Hoje, ela é só um hemisfério minguante, uma tristeza curvada sobre si mesma que se recusa a ouvir. O não-ouvir da lua é um muro de … Continue reading O Avesso do Crepúsculo

The Dance of Seasons

I am changing, a perpetual metamorphosis. Like a leaf caught in the whims of time, I twirl through the seasons. Each turn brings a new hue, a fresh face to the world. In spring, I unfurl like a tender bud, reaching for the sun. My veins pulse with life, and I wear the green cloak of hope. The air smells of possibility, and I sway with the breeze, eager to embrace the warmth. Summer arrives, and I bask in the golden glory. My edges crisp, kissed by the sun’s fiery lips. I am vibrant, alive, and my laughter rustles through … Continue reading The Dance of Seasons

O Hóspede Sem Rosto

Qual é a cura para a tristeza? Pergunta vã. Não há cura para a tristeza, porque ela não é uma doença; é um modo de ser, um osso que cresce para dentro. Pode-se, é claro, engolir as pequenas pílulas coloridas que prometem o silêncio. Pode-se escrever, ah, escrever é tentar dar corpo ao que é puro vácuo, e despejar o que se sente no papel, como quem sangra para não transbordar. Talvez o aperto no peito ceda um milímetro. Talvez a vida deixe de ser esse consumo voraz e se torne apenas uma espera. Mas a tristeza… ela nunca se … Continue reading O Hóspede Sem Rosto