O Amor

A quietude do quarto era quase sólida, até que a frase me saltou do peito, pesada e viva, exigindo um corpo: “O amor exige expressão.” Não há como domesticá-lo. Tentei, por um instante, guardá-lo sob a língua, mas o amor rejeita o cativeiro. Ele não suporta o ensimesmamento. Não fica parado, estagnado como água morta; não fica calado no escuro da hesitação. Há uma urgência quase violenta em sua doçura. É bom, é modesto na sua própria imensidão, mas — e aí reside o perigo e a beleza — ele quer o mundo. É para ser visto, ouvido, sentido até … Continue reading O Amor

Na Casa da Minha Infância

Na casa de minha infância, jamais se acenderam luzes artificiais de Natal, tampouco surgiram presentes. Lembro-me disso agora, não com o peso do que faltou, mas com a leveza do que transbordou. Reflito sobre isso enquanto contemplo o céu, onde o vermelho e o laranja desvaneceram com o crepúsculo, encobrindo a luminosidade do sol. Há um instante preciso em que o dia morre e a noite ainda não nasceu; é nesse vazio que a infância nos habita. Meus olhos, repletos de contemplação, acompanham a revoada de pássaros que pinta o céu de negro, como se protegessem a casa de outrora. … Continue reading Na Casa da Minha Infância

The Weight of Being

I have been thinking, with a sort of heavy grace, about the simplicity of these ordinary things. Milk goes off eventually, turning sour under the weight of its own nature. Cicadas shed their shells, leaving behind hollow, translucent ghosts of themselves clinging to the trees. Inside us, the same rhythm plays out: our lungs expanding and contracting, burdened and blessed by the sheer weight of breath. It is the endless, repetitive cycle of a nature that never tires of its own theater. The evening rain falls, leaving the bark of the trees wet and dark, smelling of earth and beginnings. … Continue reading The Weight of Being

O Esplendor da Carne

A nudez, para ela, não começava na ausência de roupas. Começava antes. Vinha de um ponto obscuro e vital que latejava bem atrás do estômago. Todos os dias, ela caminhava nua pela casa. Não era um ato; era um estado. As cortinas escancaradas desafiavam o mundo exterior com a violência mansa de quem simplesmente existe. O cabelo solto, pesado de si mesmo. A coragem estendida sobre os móveis, como um tapete precioso que ninguém ousava pisar. Não era sobre sexo. Bom, ela pensava, enquanto a brisa tocava a curva súbita de seu quadril, talvez não fosse inteiramente sobre sexo. Havia … Continue reading O Esplendor da Carne

Stardust Conversations

Women like you and I find solace in whispered conversations with the stars. We tilt our heads upward, tracing constellations with our eyes, as if seeking answers from the distant luminaries. How rare it is to encounter a soul on this earthly plane that shines as brilliantly as a star. Amidst the mundane, we stumble upon those who radiate—an inner light that defies gravity, pulling us toward them. Their laughter echoes like celestial music, and their kindness leaves trails of stardust in our wake. Yet, there exists a select few—rarer still—whose brilliance surpasses even the full moon. They are the … Continue reading Stardust Conversations

O Peso Vivo do Sentir

Olho para as minhas mãos e vejo nelas o mistério do mundo. Entre os dedos, sempre tive um relacionamento avassalador com a matéria das coisas. Viver nunca me foi um ato abstrato; foi sempre uma urgência tátil. O tato, o simples roçar… através dele, comuniquei verbos indizíveis e sujeitos inexistentes com palavras puramente humanas. Há uma linguagem silenciosa na carne que a gramática inveja. Com a ponta dos dedos, numa audácia que me assusta e liberta, toquei o céu e a terra, oscilando sem redes de proteção entre a alegria mais pura e a mais profunda desespero. Não há neutralidade … Continue reading O Peso Vivo do Sentir

A Copa da Xenofobia

A Copa do Mundo de 2026escancara de vez as vísceras da xenofobia geopolítica e transforma o serviço de imigração dos Estados Unidos no primeiro e mais violento obstáculo do torneio. O dogma da “fraternidade esportiva” racha antes mesmo do apito inicial, expondo uma segregação brutal: enquanto delegações europeias cruzam as fronteiras com tapete vermelho, seleções africanas e a equipe do Irã enfrentam o escrutínio humilhante e a hostilidade de um sistema desenhado para rejeitá-los. O caso da seleção iraniana e de delegações da África ultrapassa o limite do absurdo esportivo e se torna uma crise humanitária de relações internacionais. Sob … Continue reading A Copa da Xenofobia

O Inventário do Silêncio

Como se perdoa um pai?A pergunta me veio na hora do almoço, entre o mastigar mecânico da carne e o barulho do relógio na parede, que insiste em contar um tempo que já não nos pertence. Olhei para as minhas próprias mãos e vi nelas o desenho das mãos dele. É um susto. Estar presa na herança da carne daquele que me abandonou? Talvez o perdão só aconteça no sonho. Lá onde a lógica das coisas duras se desfaz e a gente esbarra no outro sem o peso da memória. Perdoar porque ele ia embora vezes demais? Ou porque foi … Continue reading O Inventário do Silêncio

Poésie

Je me baigne dans la poésieen séchant tant de peines. Je m’illumine dans le poèmeen effaçant toutes mes peurs. Je me dilue dans les lettresen gagnant un peu de solidité. Je me souviens, dans un vers,de ce que je cherche à oublier. Entre racines, raisons,mensonges et mystères… ❤️🌿 Continue reading Poésie

The Weight of Not Being Practical

I had a plan, and the plan was to avoid my mistakes—the kind that do not merely trip the body, but fracture the soul. I look at those who err with simplicity, with a clean, objective pragmatism, and I feel a heavy, silent envy. They stumble, they rise, they restart without a single hesitation, while I turn every misstep into a profound, suffocating liturgy. I wanted that lightness, the grace of those who stretch their hearts out in the sun and laugh without calculating the cost. Instead, I am a captive of my own absurd speculations, constantly threatening my own … Continue reading The Weight of Not Being Practical