Antes que as Flores se Curvem

Quero massagear, como um remédio, palavras macias como loção nos seus ombros e na nuca… Quero espalhar palavras mansas na sua pele, não como quem fala, mas como quem cura. Palavras sem o gume da lógica, sem a pressa do entendimento. Um unguento de sílabas suaves que desliza pelos seus ombros tensos, descendo pela nuca — ali onde a fragilidade humana se esconde e se contrai. Massagear a sua carne com o sopro do que é leve, até que o nó que te aperta o peito comece, finalmente, a ceder. No fundo, o que buscamos nessa fricção da alma com … Continue reading Antes que as Flores se Curvem

O Caleidoscópio Interno

Traçar os contornos dos pensamentos alheios não é apenas ver; é uma invasão mansa, um desastre delicado. Cada sinapse sua era uma ponte entre mundos suspensa sobre o nada. E eu, que tantas vezes me perco na própria carne, usei os teus olhos como bússola. Olhar através de ti foi como vislumbrar um caleidoscópio de emoções cruas — matizes de alegria, dor e aquela longuíssima saudade que não se sabe de onde vem, mas que pesa. Havia uma fome em mim. Alimentei-me dos sabores das tuas memórias, saboreando o agridoce que te define e que, de algum modo, também me … Continue reading O Caleidoscópio Interno

Bárbara

A cozinha estava em silêncio, aquele silêncio pesado e vertical que só as mães sabem preencher sem dizer uma palavra. Eu a olhava de relance, as mãos dela ocupadas com alguma miudeza cotidiana, um pano de prato, uma xícara vazia. E, de repente, veio-me um sobressalto: quem é essa mulher quando não está sendo minha mãe? Olhar para uma mãe é, quase sempre, olhar para um espelho que se recusa a refletir a si mesmo para refletir apenas o outro. Mas há frestas. Há dias em que a rigidez do papel desaba e o que sobra é a matéria-prima da … Continue reading Bárbara

An Act of Defiance Against the Night

The thing about the night is that it doesn’t just fall; it waits. It stands at the edge of the bedroom, heavy, with a mouth ready to swallow everything that breathes. But I look at it, and my looking is an act of defiance. I write for myself—for every time I refused to surrender, for the nights that tried to swallow me whole and failed. To write is to touch the wet, raw core of being. It is an internal violence, yes, but a necessary one. They wanted me silent. They—the lovers who shamed me, the voices that tried to … Continue reading An Act of Defiance Against the Night

O Milagre é para Hoje

O relógio na parede não faz barulho, mas o tempo escorre como água clara entre os dedos. Olho para as mãos e percebo: há uma pressa mansa em tudo. Por que guardamos tanto silêncio na gaveta? Espero, com uma esperança quase dolorosa, que quando a ausência de alguém lhe apertar o peito, você não se esconda atrás do orgulho. Não espere que o outro ligue primeiro. O que é o orgulho senão uma casca fina que nos impede de tocar o mistério do outro? Arrisque tudo. Coloque sua alma inteira na linha de frente, nua, sem garantias. Há uma santidade … Continue reading O Milagre é para Hoje

L’Éternel Retour

Je te regarde et je ressens le vertige de celui qui penche son regard sur un abîme qui, mystérieusement, a le goût de la maison. Aimer est une sorte de défaillance volontaire. Quand je m’approche, je perds le contrôle de ma propre matière. Tengo el poder de morir en tus labios como un suspiro que se disuelve en la noche. Ce n’est pas une mort de fin, tu comprends ? C’est une mort de don. C’est comme la dernière lueur avant l’aube, celle qui ne s’éteint pas par faiblesse, mais parce qu’elle se rend, douce et digne, au mystère de … Continue reading L’Éternel Retour

A Costura Invisível do Ser

Tenho medo. Não do erro, compreenda, porque o erro é apenas o amor tremendo de susto neste mundo espantosamente louco. Tenho medo é da vastidão que se abre quando penso em você. Se o medo porventura rezar por pragas — porque a alma assustada às vezes range os dentes —, eu dobrarei os meus joelhos para inventar outra prece: que o amor nos salve de nós mesmos e que os nossos beijos sempre saibam o caminho de volta para casa. Costure-me em ti. Não uma costura higiênica, mas um alinhavo na carne viva. Prenda o meu “eu” no seu “você” … Continue reading A Costura Invisível do Ser

O Farol do Universo

Olho para o círculo a lápis no caderno amarelado — ciência e poesia, dizia a margem — e dentro dele, uma jaula para o infinito: o farol do seu universo. Faz muito tempo. O professor de filosofia gritava, gesticulava, arrancava os próprios cabelos em um desespero quase cômico, uma caricatura viva da paixão acadêmica. Ele uivava para nós, jovens sentados em nossas certezas frias, que o amor era isso. Uma lente que deforma e salva. “Nada significa tanto sem essa pessoa”, ele dizia, com a saliva de quem descobriu o segredo do mundo e se queima com ele. Um dos … Continue reading O Farol do Universo

The Vertigo of Sprouting

The afternoon did not begin; it accumulated. It was a weight of light, a thick yellow that pasted itself to the windowpanes, waiting. Inside the dark, quiet earth of the chest, something was happening without permission. It was an almost painful itch of existence. The Earth danced to life as mixtures of rain and sun stirred my dormant seeds. It was not a grand, theatrical dance, but a secret, microscopic shudder. A root is a blind finger searching for God in the mud. To be born is a violence of light piercing through the heavy, wet soil. I felt the … Continue reading The Vertigo of Sprouting

Hate Never Left—It Learned to Disguise Itself!

Misogynistic violence, racism, and hate speech are nothing new—they have long been embedded in society. But today, they surface with alarming audacity. What has changed is their form: once whispered, they are now shouted across social media, anonymous emails, and even political speeches. When female lawmakers face threats of rape and murder, when Black individuals are subjected to racial slurs, and when minorities are persecuted, these are not “isolated incidents.” We are witnessing the same fascism as always, merely repackaged. Those who refuse to connect the dots are either deliberately ignoring history or, worse, complicit in a power structure that … Continue reading Hate Never Left—It Learned to Disguise Itself!