O Sussurro da Matéria

É curioso como a gente cabe dentro de um suspiro. Entre a estrela fria lá em cima e a terra úmida aqui embaixo, eu simplesmente sou. Sou um sopro frágil, feito de lama e de sonho, desfeito pelo próprio vento do tempo que passa sem pedir licença. Mas há algo em mim que resiste à lógica da ruína. Dentro desta carne tão pouca, tão breve, mexe-se um bicho antigo. Eu sinto: o pulso dos mundos, o mar batendo na maré, o fogo bruto que pariu o sol. Tudo isso roda aqui dentro. Não como dono, não como coroa, mas como … Continue reading O Sussurro da Matéria

Prayer for the Nature

Father, I offer this prayer because You are in my hands just as I am in Yours. You live in my words just as in You I am also a verb. And in my eyes, You are the seed that reveals the color of the fruits, the name of a river that surrenders to the sea, the small child who embraces the mother. Through Your word, I learned to respect the winter, to wait for the spring, and to accept my harvests; I learned to be summer and to fly with the swallows. Bless me as You bless the grain … Continue reading Prayer for the Nature

O Tecido Mudo do Abraço

Há qualquer coisa de lancinante e urgente num abraço. Não é apenas o encontro de dois corpos que se tange; é o instante exato em que a pele decifra o indizível. No centro de cada abraço, essa geometria secreta, habita um universo mudo, um santuário áspero e terno onde o coração, finalmente exausto de tanto lutar, descansa. Você chega e me envolve. E, de repente, o mundo, com sua crueldade cotidiana e seus relógios implacáveis, suspende-se. Nesse curto-circuito do tempo, o corpo sussurra o que a boca tem medo de proferir. Há uma brisa suave que atravessa a gente e … Continue reading O Tecido Mudo do Abraço

A Message of Encouragement

I want you to succeed, dear soul. In every endeavor you undertake, in every act of love you extend to yourself and to others. I wish for you to be swift in forgiveness and gentle in judgment, to not be overly harsh on yourself when you stumble, nor on others when they falter. I know the weight of past disappointments, the scars left by those who have failed you. But perhaps, true success is not measured by solitary achievements, but by the grace with which you respond to life’s challenges, fostering mutual growth and understanding. At the end of each … Continue reading A Message of Encouragement

O que nunca foi delas

Tem gente que a gente tenta alcançar com o coração inteiro. A gente se dobra, se estica, se molda. Oferece afeto como quem oferece abrigo em dia de tempestade. Dá atenção como quem serve café quente em manhã fria. E mesmo assim, não chega. Não toca. Não atravessa. Eu, por exemplo, já tentei dar a algumas pessoas coisas que elas nunca tiveram. Paciência, escuta, cuidado. Um tipo de amor que não exige nada em troca. E por um tempo, achei que o problema era meu. Que eu não sabia dar direito. Que talvez meu afeto tivesse alguma falha de fabricação. … Continue reading O que nunca foi delas

A Ferida do Afeto

Tudo em mim é uma ânsia de recolher. Acumulo o calor fugaz das pessoas, o tique-taque obstinado dos relógios, as palavras que me tocaram a alma como uma lâmina branda. Queria descascar a vida como quem descasca uma laranja, até que o coração ficasse ali, exposto e cru, sem defesas diante do mundo. Quero catar esses cacos miúdos e fazer deles um ninho. Uma casa? Não, mais do que isso: um refúgio contra o irremediável espanto de existir. O que se coloca dentro de um ninho feito de essências? O gosto espesso do prato favorito, o cheiro que tem a … Continue reading A Ferida do Afeto

Você é …

Há algo de pesado e sagrado no que você é. Não é o solo pisado que se esfarela sob os sapatos indiferentes; é o ventre antigo, esse oco escuro e quente que pulsa embaixo do silêncio como um segredo que não quer ser dito. Sim, você é a raiz feroz. Aquela que não pede licença, que rasga a pedra com uma violência cega, apenas porque a vida exige passagem. Você afunda no profundo, lá onde o tempo perde o nome e esquece os ponteiros, e é justamente aí que você respira, é aí que você resiste, teimosa como a própria … Continue reading Você é …

La Rage de Vivre

Perdu. Le mot flotte, une encre noire sur le blanc du papier, comme une pierre lâchée dans un lac immobile. Il s’étire, ce « perdu ». J’ai perdu des gens, ceux qui formaient le tissu même de mes journées, leurs rires comme des miettes de pain sur la table du matin. Ils se sont effilochés, ont quitté la scène, laissant derrière eux un silence assourdissant, une pièce vide où la poussière danse dans un rai de soleil. Perdu des batailles, aussi. Les conflits intérieurs, les guerres contre soi-même, les espoirs déçus qui s’écrasent comme des vagues sur les récifs de … Continue reading La Rage de Vivre

The Geography of the Soul

“Mirror in the sky, what is love?Can the child within my heart rise above?Can I sail through the changing ocean tides?Can I handle the seasons of my life?” There is a silent geography within us, a territory where light and shadow dance in an eternal, fragile embrace. We walk through life carrying the raw map of our questions, looking up at the vastness, asking the mirror in the sky for a grammar of what we cannot quite name. Love is never a loud certainty; it is a pulse, a quiet ache that asks to be lived without armor. We wonder … Continue reading The Geography of the Soul

Entre a Névoa e o Intocável

Isso é para você e para todos os outros fantasmas que habitam as frestas do mundo. Aqueles que se cobrem de virtudes tão delicadas, tão translúcidas, que se tornam invisíveis aos olhos dos vivos. Qualidades que nos desfazem na carne, mas nos mantêm, dolorosamente, inteiros na alma. Os vivos buscam o que podem tatear, saborear, cheirar e ouvir. Precisam da grossura do mundo para acreditar que ele existe. Mas nós, os belos fantasmas, nos reconhecemos no silêncio, na névoa fina que desce de madrugada e na densidade do nevoeiro. É verdade que dói não sentir o toque bruto dos vivos. … Continue reading Entre a Névoa e o Intocável