O Peso da Presença

Não, eu nunca quis um homem perfeito. A perfeição, ora, é um espelho embaçado onde a gente não se reconhece. A perfeição exige uma coreografia sem um único passo em falso, e o que é a vida senão um tropeço contínuo e glorioso? Eu não queria um palco, queria apenas a sala de estar, com suas xícaras de café meio frias e a poeira dançando no sol da tarde. Eu queria, e isso me parecia tão simples, tão humilde quanto um grão de areia, alguém que soubesse ficar. Alguém que, diante da primeira tormenta – daquelas que não trazem chuva, … Continue reading O Peso da Presença

Le Souffle et la Trace

Il ne reste rien. Rien, sinon le vent. Ce vent invisible qui a traversé notre histoire comme une respiration, un souffle tantôt caressant, tantôt d’une violence aveugle, un de ces vents qui arrachent les mots de la bouche et laissent l’âme nue. Je regarde ce qui fut nous, et je cherche le poids des choses. Mais les choses s’effritent. Il ne reste que le mouvement de l’air, ce mystère insaisissable qui continue de frôler nos mémoires avec la persistance d’une hantise. C’est presque insoutenable, cette manière qu’a le passé de ne pas mourir, de se réinventer sous la forme d’une … Continue reading Le Souffle et la Trace

O Avesso da Ausência

O amor começa antes de ser nome. Há nele uma espessura de coisa cega, um tatear no escuro que não pede licença para doer. Amar-te assim, sem que soubessses e quase sem que eu soubesse, foi habitar o reverso das palavras. No lado avesso do meu silêncio, encontrei uma raiz que crescia sozinha, alimentando-se da própria umidade secreta da alma. Era um amor quase físico, como o toque pesado da lua roçando lábios entreabertos na noite úmida. Eu te inventava com a precisão dos desesperados. Cada dia era uma caçada sutil a uma sombra que ainda não tinha rosto, mas … Continue reading O Avesso da Ausência

In prose, remembrance is a statement. In poetry, it is a resurrection

To say “You will be remembered” is to promise a place in the mind. But poetry does more—it carves memory into the marrow of time. It does not merely recall; it reanimates. Through rhythm and metaphor, the soul of the departed is not just spoken of—it is spoken into being. Where prose draws a portrait, poetry breathes life into it. The line: “So long as breath shall stir the earth…”is not just a vow—it’s a covenant between the living and the written word. It suggests that memory, when wrapped in verse, becomes immortal not because we choose to remember, but … Continue reading In prose, remembrance is a statement. In poetry, it is a resurrection

O Pássaro atrás do Vidro

Ele anda na ponta dos pés pelo quarto, como quem tem medo de espantar o pó dos móveis ou o restinho de ar que me restou. De vez em quando, deixa cair migalhas discretas, gestos medidos de quem espera que eu dê mais um passo, que eu me arraste para perto da sua luz, que eu aceite a mão estendida como um abrigo seguro. Mas há quedas que acontecem tão lá do alto, de ninhos tão antigos, que a gente esquece o cheiro das árvores e o gosto do vento livre. Caiu-se tempo demais atrás. O que restou não cabe … Continue reading O Pássaro atrás do Vidro

Coragem

Às vezes é preciso lutar para além das nossas próprias forças e encarar os nossos demônios. Não importa o quê, temos de nos reinventar a cada dia, encontrar a nossa própria estrela e deixar que o brilho se derrame sobre nós. Nada é fácil, embora a vida pareça tão simples, e nós sejamos malditos seres humanos que complicam tudo. Somos humanos, criaturas terrivelmente hábeis em complicar o simples. E há dias em que as nuvens negras desabam sobre nós, arrastando-nos para o fundo dos nossos próprios labirintos, por mais que o amor de quem está perto tente nos puxar para … Continue reading Coragem

Daughter of the Storm

I am the storms. I am the scroll of dirty gray sky, unfurling across the heavens with a promise of chaos. The wind is my breath, tossing leaves into a wild dance and tearing shingles from rooftops with a fierce, unrelenting force. The first small drops of rain are my whispers, delicate pinpricks that herald the tempest to come. I am the wink of lightning, a fleeting flash that illuminates the cityscape, casting shadows and light in a brief, electric embrace. My voice is the growl of thunder, rumbling low and deep across the open fields, a sound that speaks … Continue reading Daughter of the Storm

Renascer

Tenho morrido em silêncio, nas esquinas da alma onde ninguém passa. Morrido de saudade, de cansaço, de injustiça. Mas sempre há um cheiro de café fresco vindo da cozinha da esperança. E então eu me levanto. Não é fácil, não. Renascer exige mais do que força — exige fé miúda, dessas que cabem num pão quentinho ou num bilhete esquecido na gaveta. Fingir-se de sol quando tudo é sombra é arte de quem aprendeu com o barro, com o tempo, com as dores que não se dizem. Já me mataram com palavras frias, com olhares que não enxergam, com ausências … Continue reading Renascer

Silence

I need to be quiet with you. Exactly like this, without preambles, like someone opening the door to a room where the furniture has already lost the dust of certainties. Letting the fingertips trace love songs on the skin, not out of an urgency to touch, but because the skin is the only map that dispenses with the legend. Let my fingertips trace love songs on your skin. There is a clandestine territory where words stumble and fall to their knees, exhausted from meaning. Cortázar knew this well; the best encounters happen in the cracks, in the unspoken paragraphs, in … Continue reading Silence

Selvagem

Nasceu selvagem, sim. Não por desamor ao mundo, mas por excesso de vida que não coube nos vincos do papel nem nas margens do relógio. Havia nela uma curiosidade antiga, quase dolorosa, como se os olhos guardassem o clarão de mil estrelas cansadas de escuro. O que fazer com alguém assim? Quem tem coragem de fechar em gaiola o que aprendeu a dançar com o vento e a conversar de igual para igual com a chuva?— Eu brinco com o fogo da minha própria verdade — disse-me ela, e a voz não era som, era pulso, era uma convicção que … Continue reading Selvagem