O Milagre é para Hoje

O relógio na parede não faz barulho, mas o tempo escorre como água clara entre os dedos. Olho para as mãos e percebo: há uma pressa mansa em tudo. Por que guardamos tanto silêncio na gaveta? Espero, com uma esperança quase dolorosa, que quando a ausência de alguém lhe apertar o peito, você não se esconda atrás do orgulho. Não espere que o outro ligue primeiro. O que é o orgulho senão uma casca fina que nos impede de tocar o mistério do outro? Arrisque tudo. Coloque sua alma inteira na linha de frente, nua, sem garantias. Há uma santidade … Continue reading O Milagre é para Hoje

L’Éternel Retour

Je te regarde et je ressens le vertige de celui qui penche son regard sur un abîme qui, mystérieusement, a le goût de la maison. Aimer est une sorte de défaillance volontaire. Quand je m’approche, je perds le contrôle de ma propre matière. Tengo el poder de morir en tus labios como un suspiro que se disuelve en la noche. Ce n’est pas une mort de fin, tu comprends ? C’est une mort de don. C’est comme la dernière lueur avant l’aube, celle qui ne s’éteint pas par faiblesse, mais parce qu’elle se rend, douce et digne, au mystère de … Continue reading L’Éternel Retour

A Costura Invisível do Ser

Tenho medo. Não do erro, compreenda, porque o erro é apenas o amor tremendo de susto neste mundo espantosamente louco. Tenho medo é da vastidão que se abre quando penso em você. Se o medo porventura rezar por pragas — porque a alma assustada às vezes range os dentes —, eu dobrarei os meus joelhos para inventar outra prece: que o amor nos salve de nós mesmos e que os nossos beijos sempre saibam o caminho de volta para casa. Costure-me em ti. Não uma costura higiênica, mas um alinhavo na carne viva. Prenda o meu “eu” no seu “você” … Continue reading A Costura Invisível do Ser

O Farol do Universo

Olho para o círculo a lápis no caderno amarelado — ciência e poesia, dizia a margem — e dentro dele, uma jaula para o infinito: o farol do seu universo. Faz muito tempo. O professor de filosofia gritava, gesticulava, arrancava os próprios cabelos em um desespero quase cômico, uma caricatura viva da paixão acadêmica. Ele uivava para nós, jovens sentados em nossas certezas frias, que o amor era isso. Uma lente que deforma e salva. “Nada significa tanto sem essa pessoa”, ele dizia, com a saliva de quem descobriu o segredo do mundo e se queima com ele. Um dos … Continue reading O Farol do Universo

The Vertigo of Sprouting

The afternoon did not begin; it accumulated. It was a weight of light, a thick yellow that pasted itself to the windowpanes, waiting. Inside the dark, quiet earth of the chest, something was happening without permission. It was an almost painful itch of existence. The Earth danced to life as mixtures of rain and sun stirred my dormant seeds. It was not a grand, theatrical dance, but a secret, microscopic shudder. A root is a blind finger searching for God in the mud. To be born is a violence of light piercing through the heavy, wet soil. I felt the … Continue reading The Vertigo of Sprouting

Hate Never Left—It Learned to Disguise Itself!

Misogynistic violence, racism, and hate speech are nothing new—they have long been embedded in society. But today, they surface with alarming audacity. What has changed is their form: once whispered, they are now shouted across social media, anonymous emails, and even political speeches. When female lawmakers face threats of rape and murder, when Black individuals are subjected to racial slurs, and when minorities are persecuted, these are not “isolated incidents.” We are witnessing the same fascism as always, merely repackaged. Those who refuse to connect the dots are either deliberately ignoring history or, worse, complicit in a power structure that … Continue reading Hate Never Left—It Learned to Disguise Itself!

O Verbo e a Matéria

Dei por mim pensando na gramática das coisas vivas. Como somos rápidos em aprisionar o fluxo em substantivos, em cercar o mistério com arame farpado e chamá-lo de meu. Meu homem, minha mulher, minha vida. O pronome possessivo é uma tentativa burguesa e desesperada de conter o desabamento. É o medo do escuro, o medo de que o outro, ao desviar os olhos por um segundo que seja, deixe de existir para nós. Ou pior: que nós deixemos de existir para ele. Mas o amor… ah, o amor não se deixa mobiliar. Ele tem a consistência perigosa da geleia de … Continue reading O Verbo e a Matéria

A Matéria Viva do Avesso

O silêncio da sala ferve de entrelinhas. Você mexe no café, desvia os olhos, e de repente o espaço entre nós se torna um abismo de mal-entendidos cotidianos. Quero te dizer algo que vai além da gramática dos dias úteis. Olha para mim. Por favor, não me trate como se eu fosse comum, nem me repreenda porque não sou. É exaustivo tentar caber nas gavetas que você comprou para mim. Há uma urgência em existir que você, na sua pressa de classificar o mundo, parece não ver. Vire o rosto na minha direção. Olhe para mim quando eu lhe disser … Continue reading A Matéria Viva do Avesso

My love,

How can I even begin to speak? To name the things that heavy my chest would be to ruin them, to turn something wild and formless into rigid words. I cannot tell the woes that inhabit my being. They do not have names; they only have a weight, a slow, thumping pulse that lives just beneath my skin. If I open my mouth to explain, I am afraid only a gasp will come out. Or worse, silence. You see, I am a trap door. I am a threshold. I cannot stay, not because I want to leave, but because I … Continue reading My love,