O Peso Vivo do Sentir

Olho para as minhas mãos e vejo nelas o mistério do mundo. Entre os dedos, sempre tive um relacionamento avassalador com a matéria das coisas. Viver nunca me foi um ato abstrato; foi sempre uma urgência tátil. O tato, o simples roçar… através dele, comuniquei verbos indizíveis e sujeitos inexistentes com palavras puramente humanas. Há uma linguagem silenciosa na carne que a gramática inveja. Com a ponta dos dedos, numa audácia que me assusta e liberta, toquei o céu e a terra, oscilando sem redes de proteção entre a alegria mais pura e a mais profunda desespero. Não há neutralidade … Continue reading O Peso Vivo do Sentir

A Copa da Xenofobia

A Copa do Mundo de 2026escancara de vez as vísceras da xenofobia geopolítica e transforma o serviço de imigração dos Estados Unidos no primeiro e mais violento obstáculo do torneio. O dogma da “fraternidade esportiva” racha antes mesmo do apito inicial, expondo uma segregação brutal: enquanto delegações europeias cruzam as fronteiras com tapete vermelho, seleções africanas e a equipe do Irã enfrentam o escrutínio humilhante e a hostilidade de um sistema desenhado para rejeitá-los. O caso da seleção iraniana e de delegações da África ultrapassa o limite do absurdo esportivo e se torna uma crise humanitária de relações internacionais. Sob … Continue reading A Copa da Xenofobia

O Inventário do Silêncio

Como se perdoa um pai?A pergunta me veio na hora do almoço, entre o mastigar mecânico da carne e o barulho do relógio na parede, que insiste em contar um tempo que já não nos pertence. Olhei para as minhas próprias mãos e vi nelas o desenho das mãos dele. É um susto. Estar presa na herança da carne daquele que me abandonou? Talvez o perdão só aconteça no sonho. Lá onde a lógica das coisas duras se desfaz e a gente esbarra no outro sem o peso da memória. Perdoar porque ele ia embora vezes demais? Ou porque foi … Continue reading O Inventário do Silêncio

Poésie

Je me baigne dans la poésieen séchant tant de peines. Je m’illumine dans le poèmeen effaçant toutes mes peurs. Je me dilue dans les lettresen gagnant un peu de solidité. Je me souviens, dans un vers,de ce que je cherche à oublier. Entre racines, raisons,mensonges et mystères… ❤️🌿 Continue reading Poésie

The Weight of Not Being Practical

I had a plan, and the plan was to avoid my mistakes—the kind that do not merely trip the body, but fracture the soul. I look at those who err with simplicity, with a clean, objective pragmatism, and I feel a heavy, silent envy. They stumble, they rise, they restart without a single hesitation, while I turn every misstep into a profound, suffocating liturgy. I wanted that lightness, the grace of those who stretch their hearts out in the sun and laugh without calculating the cost. Instead, I am a captive of my own absurd speculations, constantly threatening my own … Continue reading The Weight of Not Being Practical

Antes que as Flores se Curvem

Quero massagear, como um remédio, palavras macias como loção nos seus ombros e na nuca… Quero espalhar palavras mansas na sua pele, não como quem fala, mas como quem cura. Palavras sem o gume da lógica, sem a pressa do entendimento. Um unguento de sílabas suaves que desliza pelos seus ombros tensos, descendo pela nuca — ali onde a fragilidade humana se esconde e se contrai. Massagear a sua carne com o sopro do que é leve, até que o nó que te aperta o peito comece, finalmente, a ceder. No fundo, o que buscamos nessa fricção da alma com … Continue reading Antes que as Flores se Curvem

O Caleidoscópio Interno

Traçar os contornos dos pensamentos alheios não é apenas ver; é uma invasão mansa, um desastre delicado. Cada sinapse sua era uma ponte entre mundos suspensa sobre o nada. E eu, que tantas vezes me perco na própria carne, usei os teus olhos como bússola. Olhar através de ti foi como vislumbrar um caleidoscópio de emoções cruas — matizes de alegria, dor e aquela longuíssima saudade que não se sabe de onde vem, mas que pesa. Havia uma fome em mim. Alimentei-me dos sabores das tuas memórias, saboreando o agridoce que te define e que, de algum modo, também me … Continue reading O Caleidoscópio Interno

Bárbara

A cozinha estava em silêncio, aquele silêncio pesado e vertical que só as mães sabem preencher sem dizer uma palavra. Eu a olhava de relance, as mãos dela ocupadas com alguma miudeza cotidiana, um pano de prato, uma xícara vazia. E, de repente, veio-me um sobressalto: quem é essa mulher quando não está sendo minha mãe? Olhar para uma mãe é, quase sempre, olhar para um espelho que se recusa a refletir a si mesmo para refletir apenas o outro. Mas há frestas. Há dias em que a rigidez do papel desaba e o que sobra é a matéria-prima da … Continue reading Bárbara

An Act of Defiance Against the Night

The thing about the night is that it doesn’t just fall; it waits. It stands at the edge of the bedroom, heavy, with a mouth ready to swallow everything that breathes. But I look at it, and my looking is an act of defiance. I write for myself—for every time I refused to surrender, for the nights that tried to swallow me whole and failed. To write is to touch the wet, raw core of being. It is an internal violence, yes, but a necessary one. They wanted me silent. They—the lovers who shamed me, the voices that tried to … Continue reading An Act of Defiance Against the Night

O Milagre é para Hoje

O relógio na parede não faz barulho, mas o tempo escorre como água clara entre os dedos. Olho para as mãos e percebo: há uma pressa mansa em tudo. Por que guardamos tanto silêncio na gaveta? Espero, com uma esperança quase dolorosa, que quando a ausência de alguém lhe apertar o peito, você não se esconda atrás do orgulho. Não espere que o outro ligue primeiro. O que é o orgulho senão uma casca fina que nos impede de tocar o mistério do outro? Arrisque tudo. Coloque sua alma inteira na linha de frente, nua, sem garantias. Há uma santidade … Continue reading O Milagre é para Hoje